A história de Betsabá — de débil a forte

Ela era casada com Urias, um dos trinta maiores guerreiros no reinado de Davi. Mas peca com o rei, diante de Deus e dos homens. Engravida. Aceita mentir e iludir seu marido, enganar a sociedade, proteger o rei, livrar-se do risco de morte. O plano não dá certo. O marido não acompanha a sugestão. O rei, então, planeja deixá-lo a própria sorte no campo de batalha; ele deseja sua morte. Bate-Seba, com coração endurecido, não o alerta. Não se arrepende; permite que a sorte a conduza. Urias é morto.

Ao nascer-lhe o filho, Deus o toma. Bate-Seba se anula e some da história bíblica por um tempo. A recordação de como ela destruiu sua casa e seu casamento lhe agulha o coração. Sua infidelidade demonstra ceticismo e egoísmo. Não podemos saber se sua infidelidade surgiu da falta de serenidade, da pouca intimidade, do baixo compromisso. Mas isto não importa. A fidelidade é consciente; não pisca, não cochila, não se desorienta.

Bate-Seba recusou a mútua assistência. Não quis ajudar, não deu apoio, não incentivou, não motivou nem quis se envolver nas questões do marido. Não fez simplesmente uma vingança (cenas de uma briga de casal). Exerceu o egoísmo. Viu a si, não o outro. Não foi o caso de desamor; foi inexistência de amor.

Bate-Seba não respeitou nem considerou o marido. Respeitar, respicere, segundo alguns significa “olhar outra vez”, “olhar atrás”, “atentar”. Respeito, respeitar é valorar alguém. É não violentá-lo. É manter uma convivência saudável e pacífica, aceitando as diferenças, não transgredindo os direitos do outro. Ou seja, é enriquecer as fronteiras para construir equidade e justiça nos limites dos relacionamentos. Já a consideração se origina do respeito. A etimologia da palavra consideração, nos faz entender que nos relacionamentos, os olhos, a mente e o espírito têm a obrigação de examinar cuidadosamente os assuntos para depois refletir detidamente as respostas e soluções. Considerar equivale a contemplar — marcar o limite do templo, o espaço reservado ao Deus; o muro que o rodeia e torna sagrado e intocável. O prefixo “con” indica que “tudo é junto, confessa, confraterniza, torna um conjunto”. Assim, considerar é indicar o conhecimento que se tem sobre algo ou alguém.

Bate-Seba esquece que diante das questões éticas é impossível o silêncio. Em outras palavras, os relacionamentos exigem diálogos. Mas ela não quis concordância, quis discórdia. Cai no silêncio que sufoca o relacionamento, afasta-se do diálogo e propõe a morte. Recusa a benção, opõem-se ao testemunho de si e do outro. Não se importa com ninguém.

O pecado lhe adentra a vida, os atos, as palavras e os pensamentos. Sua casa é destruída.

Após sofrer a difamação e a injúria — e todas as demais consequências — pelo mal cometido, Bate-Seba se torna outra pessoa. O pecado que a escorraçara chegara ao fim. Ela reconhece seu erro e seus defeitos. Confessa-os. Arrepende-se. Muda.

Os anos correm com ela ensinando seu segundo filho, Salomão, a fazer o que é certo, bom e verdadeiro. Para alcançar sucesso ela chega ao ponto de afastar seu filho dos demais irmãos (que Davi tivera com outras mulheres e que o envergonhava) (1RE. 1,10). O aproxima de Natã, o profeta próximo ao rei, e Benaia, o comandante do exército após o assassinato de Joabe, de Zadoque, o sacerdote, e dos poderosos do reino davídico. Sob seus olhos, Salomão se torna um homem reto e bom; um ser humano temente ao Senhor e um dos que obedecem a sua Palavra.

Bate-Seba é uma mulher de valor que não interrompe sua vida por conta de um pecado, um erro, uma queda — adultério com Davi. Ela olha para adiante. Ama. E assim, torna-se aceita, reconhecida e respeitada por todos. O Novo Testamento a inclui na genealogia do Cristo (MT. 1,16).

Seu notável exemplo nos deixa, ao menos, duas lições.

1. A compreensão da debilidade humana. Estamos sujeitos aos erros, segundo GN. 4,47 — “o pecado jaz a porta”. Ora, pecado é todo ato de irresponsabilidade. Mas só um pecado (excetuando a blasfêmia contra o Espírito) não gera a eterna prisão no sofrimento e no mal. O pecado se origina da perda de direção e da erosão da cultura. O rumo que uma vida de oração nos proporciona é o que dá direção, sem desvios, a integridade que antes faltara. A inculturação, em sua maioria, surge pelo afastamento eclesiástico — igreja para quê? Bate-Seba, entretanto, busca e encontra Deus e sua graça transformadora;

2. O entendimento da missão confiada. Ou seja, Bate-Seba se vê finalmente como mulher. A pessoa com tão grande importância quanto outra qualquer. Pois descobre que ser mulher é ser justa, reflexiva e íntegra.

Bate-Seba descobre e entende que ser mulher é…

I. Ter a capacidade de pôr em ordem a si mesma e sua casa;

II. Ser disciplinada e harmoniosa com sua casa e com todas as pessoas;

III. Ser íntegra em todos os seus relacionamentos. Portanto, ser sábia em sua convivência;

IV. É ter e dar respeito.

Bate-Seba desenvolve sua espiritualidade e seus relacionamentos porque aprende a amar seu marido, seu filho e seus amigos. Além de reconhecer ao Deus de Israel e praticar à Palavra. Aprendamos com ela.

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Política sem rumo – parâmetros para a morte social brasileira

No Brasil de hoje, os cidadãos têm medo do futuro.

Os políticos têm medo do passado.

(Chico Anísio).

Em 3 de fevereiro de 1999, no jornal Folha de São Paulo, página 3 e 4, sob o título “Prefeito usa PM para exportar mendigo – Ação visou limpar a cidade”, escreve-se: “…anteontem à noite, um major da Polícia Militar e quatro guardas municipais de Corumbá foram presos em flagrante quando, segundo a polícia, conduziam em um ônibus 16 mendigos que teriam sido capturados naquela cidade, mantidos encarcerados e forçados a embarcar no ônibus para deixar o Mato Grosso do Sul. O grupo fazia parte de um total de cerca de 32 que haviam sido obrigados a deixar Corumbá no domingo à noite por não ter emprego e moradia fixos. Parte deles fora deixada em cidades do interior do Paraná e de São Paulo, e os últimos 16 ainda estavam no ônibus quando este foi parado pela Polícia Rodoviária em Itapetininga (170 km a oeste de São Paulo). Entre os que ainda estavam no ônibus, havia duas grávidas (uma de 17 anos), doentes, idosos, e dois estrangeiros. O prefeito de Corumbá Éder Brambilla (PSDB) disse que decidiu retirar os mendigos das ruas devido ao início da temporada de pesca no município, chamado de capital do “Pantanal”. O prefeito afirmou que os mendigos que estavam no ônibus apreendido em São Paulo faziam parte de um grupo de 90 pessoas “despejadas” na semana passada no Porto Geral, um cartão-postal da cidade, à beira do rio Paraguai… “Não é justo que Corumbá e Mato Grosso do Sul se transformem em dormitório de mendigos e desocupados, alguns até com passagem pela polícia, exportados por outras regiões do país”, afirmou.

Triste história real da intervenção do Estado que entende o direito como um fim, não como um meio. Crassa história que impõe a ideia de que a sociedade é maior do que o indivíduo. Descomedida e absurda narração de uma idealização estigmatizante. O direito, por isso, é visto como uma realidade cultural que procura um valor de justiça – mas uma justiça que ordena e hierarquiza a sociedade; não uma justiça que preserva a paz comum.

Nenhum de nós aprende que a justiça só pode se dar a partir da democracia nem é ensinado que a democracia é uma exigência da justiça. Ninguém ensina que a “Constituição Federal apenas delimita a moldura em cujo interior os operadores do legislativo podem transitar”. Ninguém divulga que a sociedade justa é possível através da conscientização dos menos informados.

Decorrentemente, somos uma sociedade preconceituosa. Por ser imaginário o preconceito cria um universo particular. Deixamos de crer nos que os outros creem e passamos a ser irracionais (atitude da conduta em que se escapa, total ou parcialmente, à razão), dependentes (subordinados ao sujeito), insuficientes (incapazes, incompetentes) e impossibilitados de controle (obstaculizados, refutados).

Preconceituosos não raciocinamos, não produzimos argumentos que se sustentem. Concluímos sem premissas. E criamos superstições e confusões difíceis de erradicar.

Falta a prática ética. Ética é o caráter ou comportamento que reflete a relação que temos, imediata e cotidianamente, com a sociedade. É uma escola de julgar, de razão e de sensibilização. Eticidade é a vontade de que meu conceito supere e seja guardado na subjetividade do outro. Em outras palavras, ético é o modo de atuar universal porque passou pelo processo de mediação. O que supera e conserva o direito e a moralidade diante da liberdade. Ética, na sociedade civil, media a particularidade da pessoa concreta e condiciona o contexto dos diálogos, de forma responsável e pessoal.

Recordemos o que disse Jürgen Habermas: “Bom é quem, em situações de estresse, é capaz de sustentar as suas máximas”. Ou seja, pessoas éticas têm modelos do bem viver. Criam disposições compromissivas – um esforço – para manter-se a tradição das virtudes, as quais não são apenas forças motrizes internas do ser humano. São seres humanos com compromisso para libertar a sociedade da atração social originada pela pressão da sociedade. Porque ética é o equilíbrio que interconecta as virtudes.

Isto tudo nos aclara que a ética na política, junto, é claro, de outras qualidades humanas, possibilita garantias na vida social. Logo, cumpre ao político a estipulação dos fins corretos, a integridade pessoal e a prudência estratégica. E ao cidadão compete chamar ao falso de falso, ter consciência moral e “comunitária” – ações com regras de decência, ordem e asseio – e avaliar os erros, as falhas e as fraquezas morais e de estratégias políticas.

É possível a construção desta realidade social se privilegiarmos o estudo e a transformação das condições objetivas na sociedade de modo a permitir a plenitude da vida individual. Precisamos ir além da consciência histórica sobre a desigualdade e as relações de hierarquia, mando e obediência – da família ao Estado. É preciso flexibilizar o mito do brasileiro “bonzinho”: cordial, ordeiro e pacífico. E voltar a ter esperança no impossível, na prática política das dimensões humanas mais profundas dos incontáveis relacionamentos pessoais. Assim, a democracia será de fato o encontro dos significados políticos e sobreporá a economia. Pois será um conjunto de respostas a necessidades da vida social desenvolvidas pelos homens em sua história, como a organização da vida coletiva e o atendimento de objetivos comuns.

Daí, duas são as tarefas da atividade política.

1. Obter um consenso da sociedade civil para organizar e mobilizar as direções a serem adotadas;

2. Transformar o resultado do consenso em poder de direção hegemônica na sociedade política.

Afinal, cidadania é a escolha cotidiana dos fundamentos políticos. É a participação na direção dos negócios públicos. É o exercício cultural (ideológico), moral (cosmovisionário) e ético (democrático) que nos faz participar das decisões da comunidade e resolver sobre o futuro das decisões legislativas. Porque cidadania não se nega. Mesmo que a sociedade industrial seja sua permanente inimiga, que o progresso seja feito através do totalitarismo, que os meios de comunicação nos faça uniformizados e manipulados por falsos interesses, um eterno conformismo, uma passividade hipnótica, ou como dissera Herbert Marcuse (1898-1979), que sejamos impedidos de mudar qualitativamente porque a sociedade industrial nos ofusca,ainda teremos desejos, objetivos e ideias para tudo modificar. Isto acontecerá quando deixarmos de ser mercadorias e passarmos a questionar os “julgamentos de valor” sobre o contexto político.

Quando compreendermos, organizarmos e transformarmos a realidade, a corrupção o rompimento com o compromisso de viver o bem compartilhado com todos será findada junto da injustiça, do preconceito e da desigualdade.

Quando a política parar de alienar e fragmentar os interesses particulares aprenderemos sobre a eficácia da mediação pública e privada. Porquanto é no intermédio do espaço público, democrático e exaustivamente debativo e participativo que humanizamos a sociedade.

A ética, o derradeiro caminho social, é a atividade reflexiva, não normativa, que favorece a solidariedade e nos permite trocar experiências da justiça. Mas você pode se questionar: Para quê? Oras, para que nos afastemos do reino da sujeira “no reino da sujeira, não se pode permanecer pessoalmente limpo” (Dietmar Mieth).

Éticos dialogaremos com liberdade e estaremos mais perto das soluções dos problemas contemporâneos. Porque encerraremos com o silêncio, com o medo e com a comodidade os inimigos da ética. Teremos claramente na mente que“a falta de diálogo implica sempre na anulação da própria convivência” (Dietmar Mieth). E não nos cansaremos do esforço da manutenção, do investimento e da reflexão, que a ética exige.

Seremos, de fato e de direito, cidadãos. “Cidadão é o que sabe seu pertencimento e manifesta sua autoria de identidade. Ora, somos sujeitos somente se sociais. Não há identidade se estamos sós”.

Cidadania pressupõe autonomia e esta pressupõe consciência. É uma conquista de cada membro responsável e consciente do seu papel social. Portanto, é um processo ativo. Deste modo, a questão da cidadania não pode ser confinada nos limites das relações com o Estado, ou entre Estado e indivíduo. A verdadeira cidadania passa pelas relações que se estabelecem no interior da sociedade. As transformações das relações sociais, mais do que os decretos legais, são a base para a real inclusão da pessoa.

A nova cidadania nos levará a “sociedade democrática”. Esta não é aquela que atende ao desejo da maioria, mas aquela que garante o direito de todos, a qualidade de vida e o desapego ao consolo dos mundos virtuais.

Vivamos o mundo real. Um mundo de convivência e conhecimento. Convivência plena, com respeito e partilha de espaços e ações. Conhecimento como a oportunidade de construir uma reflexão da realidade através das informações recebidas para atingirmos consciência.

Vivamos o mundo real onde políticos de carreira ou políticos novatos, mas já adoecidos pelo poder, percam o espaço público para enunciar opiniões hipnotizantes, rudezas e ofensas nos discursos, erosões na cultura, vinganças intimidadoras, imposições inconsistentes, desorientações e ceticismos manobras e proposições para a morte social brasileira.

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Sentimentos desencontrados

Alguém ao seu lado está desanimado, outro desempregado, enfermo, enlutado… Alguém teve sua perna amputada, outro algo roubado, outro ainda está desenganado. Alguém tem dúvidas, outro o coração despedaçado. Alguém está disciplinado. Outros não estão convencidos do amor e o questionam com rigor. Um cadeirante gostaria de um lugar onde possa ver o púlpito enquanto todos estão em pé; um surdo, um intérprete; um cego, um descritor das cenas.

Todos agradecem a sua oração, mas penso que muitas são as vezes nas quais, todos esperam mais. É claro que é bom segurar uma mão para confortar e ajudar, mas é muito mais humano (e cristão), a persistência da companhia.

A primitiva fé cristã, assim como a fé veterotestamentária, grita para os ouvidos do seu coração: comunhão de amor. Mas “a manifestação do ódio dentro de nós faz a vida cotidiana ser a expressão de encontros agressivos, coléricos, com tom de voz áspero ou silêncios plenos de falsas amabilidades”. Olvidamos e omitimos que o caminho da realização da fé, o percurso do amor e a abertura para esperança precisam ocupar a totalidade dos espaços humanos. Entretanto, a figura do “homo sacer” é ausente na cultura contemporânea. Por isso somos todos “matáveis”. A neurose sistêmica, o costume da repressão, a hipnose que nos faz meros cumpridores de ordens, autômatos, doentiamente nos faz evitar os conflitos, acostumar-se a passividade sem sentido, o que pode trazer a paz hipócrita — a paz como silêncio de um cemitério: o discurso do medo e da estagnação. Sem a comunhão de amor somos seres fragmentados vivendo de ilusões, somos autoenganáveis. Marcados pelo imaginário, pelo discurso político de emoção midiática, pelo ressentimento ou recalque, nos tornamos canalizadores da dor, histéricos e irracionais. Sem a comunhão de amor há a diabolização do adversário e a determinação de novos bodes expiatórios para provocar mais dor, humilhação, esculacho… Nos tornamos carrascos, verdugos que querem que o Outro sinta “o ódio, o tédio e o mal-estar todos os dias”.

Por esta causa, a fé e a religião tem dificuldade de se ajustar aos deficientes e enfermos, se desvia de todos que estão fora da sua regra e generaliza os pecadores, os deixando continuamente perdidos. Quantos consideram o perdão? (Silêncio).

No silêncio, discordando de Lacan quando diz que o “amor colmata uma falha e o ódio a escancara”, precisamos estar no máximo grau elevado, ou seja, completamente, vigilantes com as necessidades do próximo para “seguir em paz, fortalecendo as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados, esforçando-se para ajudar no caminho, em tudo, até que o sofredor pare de manquejar e sinta o puro amor fraternal” (HB. 12, 12-14; 13,1). Porque do contrário, persistimos em sentimentos desencontrados e prosseguimos a afastar todos aqueles que não estão como nós.

Que o Senhor nos corrija.

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Os relacionamentos exigem a totalidade do ser

Exórdio

O discurso do ódio e a cultura da punição afetam a igreja, as empresas, as nações, o país. As instituições estão nocivas, infaustas, enfermas, peçonhentas e por esta causa a vida futura está condenada. Tudo virou um grande arquipélago carcerário, um refugo de castigos, uma rede de ilegalismos biopolíticos que aumentam os perigos para a humanidade.

O ser humano está fragmentado. Se tornou um pecador compulsivo, um ser incompleto, uma engrenagem de intenções da sociedade, um sofredor de delírios infrutíferos, um somático da sociedade capitalista, um marginal e um demônio.

Há séculos, devido as múltiplas visões sobre o ser humano ampliam-se as subjetividades do medo, desdobram-se os espaços de guerra, se potencializa as inquietudes, limitam-se às liberdades, normalizamos os comportamentos, suprimimos os indiscerníveis, diabolizamos os adversários, criamos paradigmas de eficiência inalcançáveis, despersonificamos os alienados, impulsionamos as urgências, concordamos com as aclamações sem raciocínio, contingenciamos o palco das relações de força, amparamos o cinismo, apressamos as convicções sem o tempo da reflexão, anulamos a conexão da verdade com a justiça, excluímos os inaceitáveis e domesticamos os demais. Manipulamos a todos.

Estamos atrofiados. Já não podemos responder…

Você conhece a si mesmo?

Reconhece as próprias áreas de perigo?

Sabe onde é vulnerável?

Consegue ter a força necessária para se afastar das suas fraquezas?

Por isso, se alguma das respostas for negativa, você corre o risco de cair na inconsciência, se tornar mórbido, perder a essência da vigilância, ficar desatento diante das tribulações e agravar o mal da humanidade.

Em hebraico, infelicidade significa estar parado.

Mas a Palavra da Verdade nos diz que é sempre possível, sob a dependência de Deus e com a ajuda de seres humanos responsáveis, equilibrados e vigorosos retomar a integridade. Para isto é preciso que nos desafiemos, desafiemos os outros e combatamos o Mal e o Mundo, com fé, coragem, amor, moderação e sabedoria. O que significa, entre outras, não perder a oportunidade para exercitar a fidelidade essencial da fé dialogal. Assim, vale recordar que o servo fiel da sabedoria ou filho da luz (LC. 16,8) é aquele que está sempre pronto, com determinação, definição e direção, para solucionar os dilemas que o ódio, o mal e a contumácia suscitam.

Um gigantesco campo de batalhadora

A solução da difícil conjuntura espiritual e das contradições terrenas se iniciam pela prática dialogal. Pois, a ação espiritual não se acovarda diante das dificuldades. Uma vez que a comunhão — a reunião dos fortes — busca a prédica exortativa, o diálogo, e nos conduz a combater o mal e o mundo, segundo Lloyd-Jones (1987), com a busca das respostas de três questões psicológicas.

1. Por que somos infelizes, perturbados e miseráveis?

2. Por que a alegria e a felicidade vêm de fontes que não tem nosso total envolvimento?

3. Por que nossa vontade é dividida ou ausente?

O coração, a vontade e o tratamento pessoal, para responder e resolver as três questões psicoespirituais, devem buscar às respostas apenas com o entendimento. Ou seja, responder com sabedoria requer primeiro a mente, depois o coração e em seguida a vontade. Logo, não temos o direito de atacar o coração do outro e nem mesmo o nosso. Pois as ligações entre, no mínimo, duas pessoas envolvem e cativam a personalidade inteira. Os relacionamentos exigem a totalidade do ser. Se não conseguirmos a plena inclusão sempre haverá pessoas desequilibradas porque lhes falta a completa união com a Palavra e o Espírito.

A vida cristã é uma vida de um equilíbrio muito sensível. […] Já foi comparada a um homem andando sobre a lâmina de uma faca, com a possibilidade de cair facilmente para um lado ou outro. Ao longo do caminho precisamos depender de distinções muito sutis […] (LLOYD-JONES, 1987, p. 71).

Desta maneira, somos obrigados, porquanto somos responsabilizados, a olhar para cima, pois “Quem julga é o Senhor” (1CO. 4, 4). Assim, pouco adianta nos flagelarmos ou nos criticarmos em demasia. Ao contrário, devemos ter claro na mente que um ânimo podre não nos é oferecido ou imputado no nascimento. No desenvolvimento humano, organizacional e social, como no argumento bíblico, precisamos exercitar o “temor, amor e moderação” (2TM. 1,7). Temor é unido ao temperamento, sua base é o “eu”. Por isso você pode “viver à vida cristã e batalhar contra as tentações e os pecados […] (pois tem) o poder para resistir, o poder para prosseguir não importando as condições ou circunstâncias, o poder para perseverar e ficar firme […] e o poder para todas as coisas — até enfrentar a morte” (LLOYD-JONES, 1987, p. 89). Já o amor — o caminho da redenção para os miseráveis — é o esquecimento de si mesmo, a recusa do autointeresse, a oposição da autopreocupação, a libertação do eu. Amar é ter uma só paixão: ver o próximo como a presença do Senhor. Com ambos, temor e amor, conquistamos a moderação — o conhecimento e a destreza para ter autocontrole, disciplina, mente equilibrada — mesmo que sejamos nervosos ou tímidos.

A somatória destas marcas cristãs fortalecem a ação da fé e reduzem, ou mesmo impedem, as consternações. Aquele que tem , portanto, “recusa entrar em pânico” (LLOYD-JONES, 1987, p. 125). Fé se opõe a perturbação, ao alarme e a exaustão. Mas sempre está pronta a enfrentar as necessidades e as provações, mesmo quando mantemos as dúvidas.

Fé começa e termina com um conhecimento do Senhor (LLOYD-JONES, 1987, p. 135). A fé baseada no conhecimento da doutrina bíblica condiciona as emoções, dirige a felicidade, elimina a infelicidade, ridiculariza a insensatez e nos faz andar sobre as águas infestadas de problemas e dificuldades com grandes e ameaçadoras ondas.

“A obra que Sua bondade começou, Seu braço de poder há de completar” (Toplady).

A vida cristã é extraordinária, embora seja vivida num gigantesco campo de batalhas, os quais muitas vezes desencorajam. A modernidade tem trazido mais obstáculos. Mais de 4 bilhões de pessoas têm acesso à internet. Mais de 2,13 bilhões são usuários ativos do Facebook. Há uma hipótese de que 96% da população mundial tem um telefone móvel, mais de 6 bilhões de aparelhos. Nestes emaranhados de redes sociais, a tentação peculiar assedia a todos. No Gólgota, os sacerdotes tramam, o céu eclipsa, um trai, outro nega, e Cristo perde momentaneamente a identidade de mestre (Jürgen Moltmann). O acesso à informação sem uma correta análise possibilita que hoje O esqueçamos, não convivamos com Ele em todo o tempo, não reproduzimos Suas Palavras, não nos aflijamos com a escravidão maligna e mundana. Tudo é aqui e agora. Logo, o desânimo é proeminente, a tristeza nos inunda, a depressão surge, os fracassos nos congelam, o pecado passa a ser uma atitude viciante, pois a abstinência da Palavra já está cauterizada. Cristo já não se apresenta só; é Ele e mais alguma coisa. Há sempre algum estimulante artificial que nos leva a nunca estar contentes.

“Hoje, recusamos o sofrimento. As pessoas querem felicidade. Assim, anestesia-se a dor, empobrecemos os sentimentos, tornamo-nos apáticos”. (Jürgen Moltmann)

Julgamos uns aos outros

Em decorrência, julgamos uns aos outros. “Julgamento é sempre defeituoso porque o que a gente julga é o passado” (João Guimarães Rosa). Daí, há mais mortes sem sentido, há mais ódio eterno, mais dor que não cura, mais guerra. Ninguém sabe que o ódio é o princípio da demonização — a dilaceração pública oferecida pela sociedade ampliada pela animosidade originada pela antipatia, pela ofensa, pelo ressentimento e pela raiva. Isto nos faz perder a sensibilidade da convivência social. Ora, é necessário recordar que convivência social é derivada do conhecimento das relações, dos conflitos, das necessidades e aspirações humanas. Também é derivada de um bom exercício individual de lapidação de si próprio, o que requer experiência de vida.

“Pela oração, cada um pode libertar o outro em vez de controlá-lo; encorajar em vez de condenar”.

Quão facilmente esquecemos que as relações se dão a partir da maneira pela qual os indivíduos se veem e se enxergam. Eis um grande problema, pois o avistar e o perceber é fluido. Muda completamente a figura, altera e suprime às identidades registradas na memória. Nos fazem abrir mão do absoluto, do fundamento. Potencializam a constante insatisfação, nos fragmentam, enrijecem os critérios e incentivam as comparações. Por vermos apenas um dos lados atacamos os envolvidos na convivência intercultural enregelamos as nossas próprias referências antropológicas e simbólicas, o que eleva as distorções e coerções dos diálogos. A partir daí a convivência se torna conflituosa — um choque de consciências e liberdades — nos obrigando a controlar o outro de maneira extrema.

“Que Deus nos defenda das ruindades calmas, dos ódios que sorriem, que não alardeiam, que caminham entre nós nos andores da falsidade” (Pe.Fábio de Melo).

Por recusarmos o diálogo, alguns até o desprezam, a sociedade se torna opressora, porque tem uma só visão, enxerga apenas um contexto. Mas o diálogo é a conjugação da totalidade contextualizadora e não opressora de qualquer sociedade. Aristóteles vem a memória porque defende que o homem é um animal político. Ou seja, os humanos vivem em sociedade por natureza e não por convenção. Somos dotados do Logos, isto é, da Palavra — como fala e pensamento. Aí, em grupo, em sociedade, na cidade, resolvemos os conflitos e as lutas, buscando sempre o bem comum e a construção da justiça. A convivência é, portanto, solidária. Nasce do reconhecimento da interdependência — mesmo ligada à culpa. É uma conduta, atitude ou disposição para agir com entendimento.

Convivência plena, com respeito e partilha de espaços e ações, será o fundamento perfeito para o entendimento das particularidades de cada ser humano e entendimento da diversidade como parte integrante da vida humana. É a base para o conhecimento como a oportunidade de construir uma reflexão da realidade através das informações recebidas com consciência.

“O inferno é a experiência do abandono, a falta de perspectiva, o sofrimento aniquilante, o lugar do castigo”. (Pensamento moltmanniano).

Aceitamos todas as opiniões

O sobrevir da realidade faz com que a igreja e a sociedade contemporânea tenha vários exemplos de estrutura de plausibilidade. Estrutura de plausibilidade, segundo o sociólogo Peter Ludwig Berger, são às estruturas de pensamento aceitas por uma cultura específica de forma geral e quase inquestionável. Em outras palavras, podemos dizer que é a perda da capacidade de examinar, avaliar e discernir com profundidade os assuntos que se apresentam para um diálogo consistente, consciente e coerente. Em decorrência, as ilusões são ampliadas, a fragmentação da personalidade é exacerbada, os sonhos e desejos são majorados, a negação das negações exponenciadas, a perda do rumo é decretada. Assim, a sociedade corre o risco de aguentar, aceitar ou suportar sem repugnância tudo que se apresenta a ela.

“Admite-se opiniões de todo tipo e a recusa de determinadas doutrinas”.

Como diz Donald Arthur Carson, no livro “A intolerância da tolerância”,

“mudamos de permitir a livre expressão de opiniões contrárias para aceitar todas as opiniões; saltamos da permissão da articulação de crenças e todos os argumentos dos quais discordamos para a afirmação de que todas as crenças e todos os argumentos são igualmente válidos” (2013,p. 13).

Parece continuamente nos faltar o autodomínio e a sabedoria. Vale recordar John Stott em seu livro “Cristianismo equilibrado”: “em coisas essenciais, unidade; nas inessenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade” (2009, p. 15). Ou seja, cabe-nos o autocontrole para que as inclinações de temperamento não nos leve a perder o equilíbrio. Ou seja, temos que exercitar o uso da razão. Pois, “renunciar o uso da razão é renunciar à religião [uma vez que] religião e razão seguem de mãos dadas”.

Sem a racionalidade bíblica e espiritual nas nossas leituras e em nossas interpretações o homem se torna um pecador. Francis Schaeffer no livro “A morte da razão”, diz que “pecador que é, não pode o homem ser seletivo em sua significação, de sorte que deixa após si boas e más pegadas na história […]” (1977, p. 90). Nesta ótica, cabe-nos entender que a fé não é uma série vaga de experiências incomunicáveis, um salto no escuro, algo inverificável. Fé é o conhecimento do Deus que existe e envolve o homem. É uma aplicação vigorosa e enérgica do ânimo que nos faz aproximar de Deus através do ponto de referência, que é a Bíblia. Ora, a Bíblia é “a comunicação da verdade proposicional de Deus, escrita em forma verbalizada, àqueles que são feitos à imagem de Deus” (1977, p. 88).

Logo, mesmo que o homem sofra as consequências do pecado original e dos pecados diários, o que o faz limitado, ele tem o potencial — através do amor e sabedoria dialogal — para refletir, sentir temor e alcançar as respostas para nunca mais cair nem ser derrotado pelo erro, pela omissão e pela desatenção.

Justiça e psicologia

Através da justiça nos relacionamentos pessoais obtemos três aspectos da coexistência humana. O primeiro é o ético. Aqui ética significa a virtude da equidade, a competência de agir com piedade e decência para preservação da paz e prosperidade na comunidade cristã (IS. 1.21; 5.23). Em seguida, há a justiça forense – a força ou ação divina para livrar-nos do mal. É a salvação como vindicação (IS. 1.27; 46.13). E em terceiro, a justiça teocrática, ou seja, o cumprimento perfeito da vontade de Deus. Justiça, portanto, é a exigência da obediência no caminho da retidão (DT. 6.25) (Harris; Archer Jr.; Waltke, 1998).

Dizer a alguém “seja justo” pode provocar através da psyché ou anima, a solução de alguma enfermidade do comportamento. Pois o ser humano é o sujeito de sua história. É o único capaz de percorrer um caminho retilíneo para o desenvolvimento do objeto do conhecimento apresentado a nós na medida em que é produzido por nós, segundo Hegel (1996). Desta forma, o mundo sensível — a experiência exterior — exige sempre a observação ou uma percepção externa das mais ocultas paixões do interior humano para que a justiça não seja uma aparência. O sujeito em crise ou em busca de autoconhecimento sob uma escolha consciente pode estabelecer a razão determinante dos seus atos, inclusive diante das formas apresentadas pelo “mundo cindido, separado em dois: de um lado, o mundo verdadeiro e eterno das determinações autônomas, do outro lado, a natureza, as inclinações naturais, o mundo dos sentimentos, dos instintos, dos interesses pessoais e subjetivos” (Hegel, 1996, p. 55-56).

A coexistência humana da justiça em suas três feições e sentidos traz à tona a urgência de uma terapia. Terapia, therapeuo, conforme Gehard Kittel (1965) é o cuidado voluntário e preocupado em servir no espírito (GN. 15.2; 24.2-14). É a capacidade de recuperar o equilíbrio emocional através da “reconquista da autonomia da pessoa, [d]a superação de experiências traumáticas do passado, em suma a normalização dos relacionamentos pessoais e a renovação da coragem para viver” (Brakemeier, 2007). Homens e mulheres constroem sua personalidade por meio do sentido de “cuidar da subsistência não apenas material” (Kittel, 1965, p. 274), mas espiritualmente. A coragem e a prudência de toda a vida social, pública, política e psicológica ganha, com os atos de justiça, um real significado e um verdadeiro compromisso atitudinal para contribuir com o ministério da justiça e do juízo (2CO. 3. 7-9).

O significado e o compromisso nos livram da “cultura do positivismo social”. As experiências do “eu” e seu ambiente social expressam o ponto de vista do inconsciente e das pulsões humanas e animais.

Claro que as sensações alteram os comportamentos. O que enseja a busca da compreensão do desenvolvimento da personalidade pela psicologia e impulsiona a teologia a penetrar no entendimento das alienações da realidade do sujeito em desenvolvimento psicológico. A diferença é encontrada na evocação dos conteúdos vitais da realidade exterior. Ou seja, a psicologia analisa as aparências particulares, os sentimentos adormecidos, enquanto a teologia nos conduz a sublimidade que nos afasta das vilezas originadas pela autoelevação insignificante dos desejos selváticos ou carnais.

“A depressão é um processo de anulação e apagamento das habilidades da mente”.

Ambas as ciências querem encontrar a conciliação dos pensamentos, sentimentos, vontades, desejos, liberdades e oposições dos mundos exteriores e interiores, conscientes ou não, para que a pessoa encontre a si própria. É uma atividade contínua que renova a coragem para viver. Uma contemplação particular da sensibilidade da alma para as determinações ajuizadas da subjetividade que é envolvida pela verdade, segundo a teologia, e segundo a psicologia é a procura da finalidade implícita ou explícita de uma secreta aspiração, atração ou vontade.

Nas duas ciências, parece que a questão do diabolos — o impulso que semeia a desunião — precisa de uma ou mais respostas para compreendermos o que nos divide, separa, aliena, dissocia, desvincula, cega ou minimiza. Deste modo, todas as vezes que, no nosso íntimo, nos alteramos — mesmo que inconscientemente — perdemos a presença do Espírito que nos envolve com liberdade e amor. E criamos psicopatias que dilaceram as relações da convivência. Vale aquilo que considero “meu”. As patologias do egoísmo limitam e aprisionam. Há castrações do desenvolvimento psicológico.

As seduções, o desviar-se do caminho correto (PV. 1. 10), acrescidas pelos corações endurecidos pelo pecado em si (JR. 17. 1), potencializam a vontade desgovernada (IS. 5. 18) e dominam toda a pessoa fazendo-a errar o alvo (GN. 4. 7).

Enfim, a tensão entre a psicologia e a teologia é resolvida, ainda que reduzidamente, pela via intermediária. A sophia encontrada entre os pontos convergentes de ambas, nos conduz as habilidades de fazer escolhas piedosas, sem teoria, abstração ou coeficiente de inteligência. É a vitória sobre a preguiça, a desonestidade maliciosa, a insensatez (o prejuízo a vida reta), o egoísmo (crime violento da recusa em ajudar ou rejeição de quaisquer compromissos) e a imprudência sexual. É advertência contra os pecados capitais. Uma indicação para que, como Jó, deixemos o Vale do Desespero (JÓ 6. 8, 24-26; 24. 12).

Amor e Perdão

“O céu começa em você” — Anselm Grün

A vida é um ruído entre dois grandes silêncios”, por isso precisamos de gente ao nosso lado que saboreie a cultura de participação. Um grupo, uma equipe, uma sociedade que “não se entrincheire contra si mesmo”. Uma consociação, uma comunidade que mantenha a mesma inclinação, ache a lucidez, permaneça honesta, recuse a ausência da verdade, abra a mente com discernimento, admita as duras intervenções como ensino e entenda a força do amor para se manter saudável na “paz dourada de cada manhã”.

O amor, parte integrante da cultura da participação, dá o significado da cifra do esforço, decifrada pela espiritualidade da memória. Sob o exercício do amor, a consciência humana se torna universal, comum e originária. Além de propor a definição do caráter dos envolvidos. Caráter é o que conduz a aspiração filosófica do Bem e a revelação judaico-cristã do Amor. É o poder maior que qualquer outro sistema de avaliação. É o que faz o ser humano um guardião da própria consciência e um ser responsável pela manifestação e epifania das significações dos fenômenos da terra toda. O caráter humano, através da linguagem, interrompe o silêncio da natureza, o mutismo das coisas, a impiedosa indiferença, a obscuridade solitária e sem palavras, a corpulência sem identidade. O ser humano dotado de pensamento e palavra produz as constantes evoluções (POPPER, 1965; 2013) e repele as anormalidades, as degenerações, as perversões, o alienar-se de si mesmo.

Deste modo, a filosofia, a psicologia e a teologia buscam o fundamento do caráter através de indagações. A filosofia segue o caminho da transparência, a psicologia busca o entendimento das interpretações obscuras do sentido do comportamento e a teologia procura a verdade que sustenta a vida oculta. Cada uma destas tem uma caricatura da linguagem.

Um sinal distintivo e indicativo — um caráter — só possível pela criação e renovação do Espírito e pelo exercício frequente e heroico da integridade do caráter incorpóreo (1TS. 4.3-7). Uma firmeza consolidada pelo amor desinteressado e perene (1CO. 13. 4-8), a catapulta daquilo que não nega interesse, mas sabe administrá-lo. A propriedade íntima do saudável coração que mantém as fontes da vida verdadeira (PV. 4.20-27).

O “amor é o único traço de união e cultura espiritual” que não leva para o interesse da paixão. Porque paixões “motivam colisões”. O amor é “reflexivo e motivado”, “um círculo muito estreito de expressão da totalidade”, “a profundidade da verbosidade”, “a interioridade concentrada na exterioridade”. Dado apenas aos que têm “caráter firme e estável, determinado, uma subjetividade que não se desvia nem dispersa”. Porquanto, o “verdadeiro caráter age sempre por iniciativa própria e com responsabilidade própria, não permitindo que um estranho intervenha nas suas decisões ou influencie seus atos”.

O Espírito, por tudo isto, está sempre num movimento progressivo. Ele “nos faz agir de acordo com um fim”. Nos faz encarar o negativo, os pensamentos fixos, os saberes sem vida, a vaidade. Como entendeu Kant (1793, 2008), o espírito vence o abismo da liberdade, a inclinação livre e perversa para o mal, a tendência para tomar decisões comportamentais arbitrárias para além da moral.

Com e pelo espírito nos livramos da opressão da contaminação, sobretudo a social. Contaminação, do latim contaminatio, contaminationis, é a corrupção através de contato. Sendo uma sujeira, poluição, infecção ou alteração da pureza, a contaminação causa modificação nas condições normais devido ao contato que torna inferior, indesejável ou impuro o objeto ou pessoa tocada, através de um rápido processo.

A história da humanidade registra diversos acontecimentos nos quais os juízos foram deturpados ou contaminados por causa da hipertrofia da subjetividade, da alteração dos valores para satisfação individual, da comparação excludente que sequestra a consciência aceita pelo significado social da história da humanidade. As concepções pré-científicas, o modelo médico, o modelo mainstreaming, o modelo social atual, das pesquisas filosófica, antropológica e psicológica não diminuíram os conceitos idealistas dos grupos opostos.

Por isto necessitamos interromper as paixões. Pois as paixões conduzem as ilusões da identidade, a multiplicidade das razões subjetivas, as indiferenças materialistas, aos ódios rígidos advindos da imediatividade irracional e aos desprezos por comportamentos discrepantes.

Precisamos realizar o amor que discerne e encerra com as hipocrisias e falsidades, com as fragmentações, os ódios e os achismos sociais. Carecemos do amor que termina com todas as psicopatias que dilaceram as relações da convivência — a ideia de que tudo é “meu”; uma patologia do egoísmo que limita, aprisiona e castra o desenvolvimento psicológico.

Talvez isto possa ser alcançado com o exercício do perdão. Perdoar não é desabafar nem dizer palavras sem responsabilidade, não é apaziguar nem reconciliar as partes. Perdoar é ser liberto da amargura e das regressões. Perdoar é parar de vagar sem alvo, sem esperança, sem cuidado. É cessar com as concupiscências que procedem do engano e renovar contínua e progressivamente o aperfeiçoamento da mente e do coração à medida da completa e sã espiritualidade para encerrar com a desunião, a desordem e os problemas. O perdão é um derramamento da graça e da misericórdia que nos ensina a parar de julgar os outros com base em padrões, perspectivas e experiências pessoais. Perdoar é trazer a paz.

Considerações finais

“As normas não podem ser extraídas dos fatos” (David Hume, filósofo anglo-saxão).

O centro da vida humana, sua capacidade de relacionar-se, está em agonia. A aflição vem pela linguagem teimosamente incerta, parcial e inessencial (Derrida, 2009), bem como pela inexistência de profundidade, pela inconsciência dos discípulos, pela unidade sem ligaduras, pelo maligno engano dos sonhos, pelas cópias de ideias que não seguem adiante, pelo terror das confissões de sangue, pela animalidade dos sorrisos pintados, pela intencionalidade da captura do paradoxo dos desejos, pela fecundidade mística da violência, pela contradição da história, pela invisibilidade da negação, pela letra morta, pela abstração da ética, pelo consumo do respeito, pela insensibilidade do pensamento, pela exterior psicanálise do espírito.

“O ser humano é alguém que necessita ser cuidado, acolhido, valorizado e amado” (Donald Winnicott). No entanto, tem sido enredado pela sensação do vazio — a depressão nos relacionamentos. Por isso, a vida futura fica ciclicamente condenada. O emaranhado de infelicidade, perturbações, miserabilidades, ausências e divisões nas relações humanas desequilibradas têm dificultado o fim dos ódios — o princípio da demonização.

São poucos os relacionamentos em que há a totalidade do ser. Falta-nos força e inteligência para extinguir as tristezas, os fracassos, os desânimos, as desilusões, os desesperos, às dúvidas e todas às artificialidades dos relacionamentos. A centralidade do afeto, se houver e se não for defeituosa nem pessimista, não pode se tornar uma pretensão acusatória, uma convicção apressada, um cinismo que desconecta as condutas e impede a unificação do pensamento com a consciência.

A animosidade de adultos, jovens e crianças amputam pela antipatia, pela ofensa, pelo ressentimento e pela raiva toda a sociedade e faz perder a sensibilidade da convivência social. Os conflitos nunca são solucionados, o que faz com que a experiência da vida fraterna, conjugal, “onissocial”, sejam descontextualizadas. Quando os diálogos não são conjugados, a convivência plena se torna uma utopia. Porque as particularidades de cada ser humano recusam a alteridade e a diversidade. Logo, o mundo continua cindido. Ao menos até que os relacionamentos sejam, de fato, mas não de norma, totais na humanidade.

As provações revelam o amor”. (Carta aos Hebreus, 12, 4-13).

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O perdão de Cristo — Aprendizado para amar ao seu próximo

A prática do amor cristão é uma característica distintiva de um discípulo do Senhor Jesus Cristo. Como parte do amor bíblico, o perdão fiel e consistente que você concede aos outros indica a sua gratidão para com Deus e o entendimento do perdão que está à sua disposição mediante a morte e ressurreição de Jesus (MT. 18,21-35; JO. 13,35; EF. 4,32). Nisto a Bíblia insiste, persistentemente, no seu todo, que concedendo perdão aos outros, você demonstra a sua obediência à Palavra de Deus, bem como o seu amor ao Senhor (JO. 14,15; 1JO. 5,3; 2JO. 6).

O perdão de Deus é um derramamento de graça e misericórdia abundantes que provê remissão de pena ao culpado, embora não liberte necessariamente o ofensor das consequências físicas e materiais do seu pecado (1SM. 12, 1-24). Assim é porque a natureza de Deus é perdoadora (NE. 9,16-17; IS. 43, 22-25); Deus perdoa qualquer tipo de erro cometido, de maneira completa (EX. 34, 6,7; SL. 103,3, 10-12; JR. 50,20; RM. 5,16-21; 8,1, 33-34; 1JO. 1,9), à exceção da blasfêmia contra o Espírito Santo (que consiste em atribuir a Satanás as obras de Deus) (LV. 24, 10-23; MT. 12, 22-32; MC. 3, 20-30).

O perdão é amor de Jesus Cristo em ação e compromisso de (1) não guardar um registro das ofensas sofridas (1CO. 13,5), (2) não fofocar com outros sobre os pecados do ofensor (EF. 4,29), (3) não fixar seu pensamento na ofensa (FP. 4,8) e (4) restaurar a comunhão com a pessoa perdoada ou com o ofensor à medida que for biblicamente possível (RM. 12,18; 2CO. 2,6-8).

Jamais julgue os outros com base em padrões, perspectivas ou experiências pessoais (JO. 7,24; RM. 14,1-13; TG. 4,11-12). Você será julgado na mesma medida com que julgar os outros (MT. 7, 1-2; LC. 6,36-38). Isto nos leva a saber que a unidade de mente e propósito deve caracterizar os cristãos (JO. 17,20-23; 1CO. 1,10; 12, 22-27; FP. 2,1-2).

Deus o capacitou para conceder perdão os outros. Você pode amar (e perdoar) até mesmo os seus inimigos (MT. 5,43-48; LC. 6,27-35), pois o perdão não depende dos seus sentimentos (1CO. 13,4-8a. CL. 3,13), mas de um ato de vontade (JO. 14,14; 2CO. 5,14-15; 1JO. 3,18-24) em resposta ao amor de Deus. Pedir perdão as outras pessoas, de modo bíblico, envolve reconhecer que você pecou contra elas e deseja misericórdia e graça (não receber o que você merece). Pedir perdão é vital para a reconciliação e interfere positivamente no relacionamento. Para que ocorra uma completa restauração é necessário dar passos bíblicos específicos. São eles:

(1) Arrependimento — uma mudança de mente que recusa a ênfase em agradar a si mesmo; e passa à ênfase em agradar a Deus com atitude de mudança bíblica correspondente. O arrependimento bíblico remove as reminiscências dos pecados passados que se constituem em frequente tentação para voltar a pecar (1RE. 15,12; JR. 4,1; AT. 10,8-19);

(2) Confissão — concordar com Deus quanto aos pecados que você cometeu contra Ele e outras pessoas, com o compromisso de abandonar esses pecados. Confessar pecados no âmbito dos pensamentos, palavras e ações (SL. 51,1-4) (ignorância, omissão e inadvertência também devem ser confessadas (LV. 4,13-21; 4, 27-25; 5.1-19). Confessar os seus pecados aqueles contra quem você pecou (TG. 5,16). Quando você confessar os seus pecados cometidos contra a outra pessoa (a) não acuse, não julgue nem traga à tona as falhas da outra pessoa, (b) não queira se desculpar e (c) não expresse apenas os seus sentimentos, identifique os erros (EF. 4,15);

(3) Restituição — reparar ou compensar os danos causados pelo seu pecado. A restituição bíblica tem lugar para com aquele contra quem você pecou (EX. 22, 1-17; LC. 19, 8-9). A paz com seu próximo é o alvo da restituição bíblica, e você não deve tentar “comprar” o relacionamento ou “manipular” a outra pessoa para que ela responda conforme você deseja (RM. 12,9a, 18);

(4) A importância da reconciliação é eliminar a inimizade tendo em vista estabelecer ou restaurar um relacionamento de unidade de paz. A reconciliação é tão importante que deve preceder a sua adoração e o seu serviço ao Senhor. Você não está apto a adorar ou servir ao Senhor a menos que tenha buscado a reconciliação com aqueles que estão indispostos com você (MT. 5,23-24).

São obstáculos à reconciliação bíblica — que devem ser vencidos: (1) um entendimento inadequado do perdão bíblico ou a falta de perdão por parte da outra pessoa (TG. 2,10; 4,17), (2) o não perdoar pela pessoa ofendida (PV. 16, 7; EZ. 18,20), (3) ficar à espera de que a outra pessoa tome iniciativa (MC. 11,25-26) e (4) exigir comportamento impecável ou de perfeição (LC. 17,4).

Como consideração final, uma última questão. O cristão que persistir no comportamento pecaminoso depois de buscar e receber perdão deverá ser disciplinado biblicamente (GL. 6,1-10), e se ainda assim não se arrepender será disciplinado por Deus (HB. 6,4-20; 10,19-39; 12, 1-29).

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O perdão como ato incondicional de Deus

Parênese é um discurso moral. Toda a Bíblia faz referência à ação da conduta moral dos fiéis. E o apóstolo Paulo não é exceção nos seus treze escritos. Em nove das suas cartas após concluir o assunto que o levou a escrever, trata da parênese cristã. Sobre este assunto a ação se volta para a igreja. Romanos 8,14, nos fala que devemos mortificar o pecado conhecido e não viver pelo poder da carne, mas, sim, sermos “guiados pelo Espírito” — não por vozes interiores ou semelhantes.

Quem guia é Deus (JR. 10,23; PV. 16,19), mas você tem o livre-arbítrio. Assim, quando nos tornamos cristãos, Deus, por meio de Cristo, nos concede a remissão dos nossos pecados e a redenção pelo Seu sangue (EF. 1,7). Ele nos dá conhecimento da Sua vontade em toda a sabedoria e prudência (EF. 1,8). Pois, sem o conhecimento de Deus, tudo é, em última análise, vaidade— algo sem qualquer sentido de propósito.

Em Efésios, Paulo nos esclarece quais os padrões pessoais que Deus exige de cada um de nós (EF. 4,17-5,21). Diz o apóstolo que a sociedade pagã — o mundo sem Deus — perdeu a concepção do alvo e da perfeição humana e assim passou a vagar sem alvo, sem esperança, sem cuidado (EF. 4,17-18).

O apóstolo insiste que o velho deve ser despojado e o novo deve ser vestido (EF. 4,22). O verbo grego utilizado dá a entender um único ato. Assim, as concupiscências que procedem do engano, que prometem alegria e lucro, nunca devem ser cumpridas (RM. 7,11; HB. 3,13; MT. 13,22).

Há duas coisas que se requer na formação do caráter cristão.

1. A renovação contínua e progressiva da nossa mais alta faculdade — o aperfeiçoamento da nossa mente e coração à medida da estatura completa do Cristo (EF. 4,12-15);

2. A aceitação decisiva do “novo homem”.

Por isso deve haver verdade e amor em lugar de falsidade e amargura (EF. 4,25-5,2). Mentiras são o maior obstáculo para o bom funcionamento do corpo. Não havendo franqueza e verdade, só pode haver desunião, desordem e problemas (RM. 12,5). Nos versículos 26 e 27 do capítulo 4 de Efésios, aprendemos que nossas emoções devem estar sob controle. A ira só é justa quando provém de indignação e não exprime provocação pessoal ou orgulho ferido. O apóstolo faz menção do Salmo 4,4, pois para ele era impossível o sossego e o sono se não estivesse solucionado o mal.

Em Efésios 4,28, vê-se que o cristão nunca deve se envergonhar nem temer o árduo trabalho, o qual é dever de todos (1TS. 4,11; 2TS. 3,10-12). Já em EF. 4,29, há um teste das palavras para cada pessoa, pois é preciso que as palavras dos servos sejam como as do Senhor (LC. 4,22). Nas palavras deve haver amor, graça e benção. O uso incorreto da fala é consequentemente um erro feito ao Espírito, algo sentido por Ele. Por isso devem estar longe a amargura, a cólera, a ira, a gritaria, a blasfêmia e a malícia, isto é, todo o tipo de mau sentimento, o que implica dizer que na vida devemos nos abster completamente de todo o pensamento que leve alguém a fazer ou falar mal de outro (EF. 4,31).

Por fim, em EF. 4,32 é dito que só após isso é que há purificação do pensamento, pois aqueles que são feitos filhos de Deus pela graça devem tornar-se imitadores do Pai Celestial (EF. 5,1; MT. 5,44-48; LC. 6,36) e exercer o amor na prática com atos de bondade e disposição de simpatia e amor (1CO. 13,1). O apóstolo descreve que o impedimento para o exercício descrito é o ressentimento, por isso passa a falar do perdão (que no contexto paulino deve ser traduzido como “tratar graciosamente” uns aos outros). O exemplo é o motivo supremo para todo o perdão (2CO. 5,19). Nisto é necessário salientar que quando não perdoamos, não somos perdoados (TG. 2,13; MT. 6,12,14; 18. 21-35; RM. 3,25; 4,7; AT. 2,38). Urge ser “compassivo” (palavra citada apenas em 1PE. 3,8), a qual orienta para uma ação acompanhada de paciência, bondade e benção. Em 2CO. 12,7 é estabelecido como ensino que a convicção do pecado e o castigo por causa do mesmo são medidas necessárias, porquanto é assim que aprendemos a não repetirmos os nossos erros. O perdão é seguido da restauração, do consolo e do encorajamento. A grande lição que devemos aprender é que, na qualidade de seres humanos, somos guardiães do irmão (GN. 4,9). Somos responsáveis por seu crescimento, desenvolvimento e bem-estar; quão mais esta verdade nos transformar em professos discípulos do Cristo. Facilmente se pode observar como um autêntico espírito de amor e encorajamento serve de cura para feridas antigas e fortalece um homem de maneiras vitais, ao passo que uma ira contínua e uma disciplina estrita só pode servir de motivo de separação.

Para concluir, EF. 5,1 é o resumo de toda a carta, bem como o resumo de todos aqueles que querem perdoar.

Bibliografia

Bíblia de Jerusalém — Paulus

Enciclopédia da Teologia do Novo Testamento — Vida Nova

Foulkes, Francis. Efésios, Introdução e Comentário — Mundo Cristãos

Lloyd-Jones, D. M. Reconciliação: o método de Deus — PES

O’Connor, Jeromy Murphy. Antropologia pastoral paulina — Paulus

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Crer é Perdoar

Perdoar é uma prática cristã que exige uma extrema força, uma habilidade incomum, um esforço do coração, um exercício de autocontrole. Por isso, perdoar não pode ser apenas uma ideia, precisa se tornar de fato uma ação — não importa que alguns a considerem algo inatingível, ou ao menos, difícil. Perdoar é seguir o modelo do Senhor, um Deus que perdoa. Releia o que afirma o profeta Jonas, és “Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade e que se arrependes do mal” (JN. 4,2).

No entanto, o homem é condicionado ao tempo. O que cada um faz hoje “poderá” ter repercussão amanhã. O verbo “poder” define que perdoar — verbo transitivo e intransitivo — é uma faculdade, uma condição, uma permissão que possibilita tolerar ou ajudar alguém.

De Gênesis a Apocalipse, Deus fala ao homem de coisas passadas e futuras com o fim de instruir quaisquer pessoas que O sirva a descobrir “mais cedo, ou mais tarde, que o grande obstáculo somos nós mesmos — e não os outros. Pois foi dado a conhecer ao homem que há luta entre a carne e o espírito, entre o homem exterior e o homem interior. Não há harmonia entre ambos porque as inclinações têm direções opostas. Entretanto, no coração de Deus está o desejo de perdoar e amar, apaziguar e reconciliar.

Deus é amor (JO. 4,8). Daí partiu o perdão — o fruto agradável concedido aos que conhecem o Senhor. Prática que nos conduz a entender que “onde não problema, não há necessidade de solução; onde não há batalha, não há vitória”. É uma lógica do Espírito que estabelece que “se não pudermos praticar a presença de Deus, dia a dia, a todo o momento, com certeza praticaremos a sua ausência em nossas vidas”. Nisto, entendemos que o Senhor Deus, Pai da eternidade, é continuamente bondoso, embora também seja rigoroso, exato e austero.

Na Carta aos Romanos, capítulo 11, versículo 22, é descrita a bondade e a severidade do Senhor. Atributos divinos que oferecem três lições: (1) Devemos agradecer a bondade de Deus (SL. 116,12), (2) Agradecer pela sua paciência. (3) Agradecer pela sua disciplina (SL. 119,71). Pois, é Ele quem sustenta e mantém tudo o que o cerca. Este ensino faz-nos lembrar que a “generosidade de Deus se estende tanto aos que desobedecem a sua ordem quanto aos que as cumprem”. Há dois contextos aí inseridos. O primeiro nos diz que “a melhor medida de uma vida espiritual não é seu êxtase, mas sua obediência” (JR. 22,16). E, segundo, que “uma igreja é um lugar onde a Palavra de Deus é pregada, as ordenanças são administradas e a disciplina é exercida”.

Após estas considerações deduz-se que

(1) Devemos examinar tudo (“examen”, no latim, se refere à agulha ou indicador de peso na escala de uma balança, dando a ideia de uma avaliação correta da verdadeira situação)1;

(2) O maior problema é o seu ego (o “eu”);

(3) Precisamos falar de nossos sentimentos aberta e honestamente, de modo responsável, sem que sejamos julgados ou rejeitados;

(4) Desabafo, por si só, não resolve nossas dificuldades;

(5) “Deus, a qualquer falha cometida, repreende imediatamente, por meio de um ardor íntimo… não permitindo que mal algum permaneça encoberto na vida de seus filhos”;

(6) A vida não examinada não merece ser vivida.

Para chegar a prática do perdão, conhece-te a ti mesmo e busca ao Senhor (AM. 5,4). Esta será a senha para que você seja um(a) iluminado(a). O mesmo sol que derrete a cera endurece o barro. Da mesma forma, a disciplina do Senhor produz em algumas pessoas doçura e maturidade; e em outras, amargura e regressão”. Para saber se a qualidade do perdão está em você observe a dica oferecida por São João Crisóstomo quando disse: “descubra a porta do seu coração e descobrirá que é a porta do Reino de Deus”. Pois só a notando saberás que o Reino está em cada um de nós (LC. 17,21).

Bibliografia

Briscoe, Stuart. Discipulado diário para pessoas comuns — Vida

Lewis, C. S. Cristianismo Autêntico — ABU

_________ Os quatro amores — Mundo Cristão

Lenz-César, Elben M. Práticas Devocionais — Ultimato

Nee, Watchman. A importância do quebrantamento — Árvore da Vida

1Examen é uma perícia, uma vistoria, a confirmação de um tesouro, o olhar para dentro, o pesar acuradamente.

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