Confissão dos pecados

Em 2CO. 4, 15, argumenta-se que “a graça” é multiplicada em “muitos”. Ora, “muitos” não significa todos, embora algumas traduções o substitua por comunidade.

Assim, é possível o entendimento de que não são todos os participantes da igreja que transbordam da ação do Espírito. Esta cláusula pode nos levar com maior força e frequência ao pecado. Pecado tem muitas significações. Uma delas define o pecado como a renúncia da responsabilidade. Neste entendimento, o apóstolo ao escrever a Segunda Carta aos Coríntios, nos recorda que, para sermos responsáveis, é necessário procurar as “coisas que não se veem, pois o que se vê é transitório […]” (2CO. 4, 18), ou seja, o vício do pecado é contínuo (GN. 4,7).

Desta forma, nos nossos relacionamentos há solidões eternas que ocasionam os desejos de morte (separação). Jó (6, 7, 9, 11, 14) nos diz que “ao aflito deve o amigo mostrar compaixão” (JÓ 6,14). Porém, há sempre a ampliação das infidelidades, seduções, mentiras, rejeições, perjúrios, repúdios, condenações, iras, ingratidões, egos selvagens, irreflexões, irresponsabilidades, omissões, imaturidades, etc. Tais amarras do mal exigem que “andemos no Espírito” (GL. 5,25). O que será sempre iniciado pela consciência da nossa depravação (RM. 1, 18-32).

Na prática, esta consciência requer o primeiro passo: a confissão dos próprios pecados (TG. 4,16; 1JO. 1,9). (Embora, na escrita de Tiago o contexto fale sobre doentes, e aqui vale salientar que na Antiguidade, o que engloba o período bíblico, as doenças eram atribuídas as decisões das divindades ou ao mal comportamento espiritual, o autor proíbe o julgamento humano condenatório (TG. 5,12). Pois, os angustiados pelas enfermidades, de maneira geral, perdem a paz e se tornaram prisioneiros das discórdias, presunções, avarezas e dúvidas).

Podemos verificar um exemplo de confissão de pecados na reconciliação entre Jacó e Esaú, em Gênesis 32, 3-21. Nesta perícope, há o pensamento de que a humildade envolve a prática da confissão. Isto porque “tirar a própria culpa”, “confessar”, no hebraico, é כפר, “cobrir” (alguma coisa fisicamente). Jacó (GN. 32,21), na língua original, diz a Esaú, “deixe-me cobrir (אֲכַפְּרָה) a sua face”.

Hoje, contudo, não temos a prática de pedir desculpas através de uma confissão. As desculpas não alcançam o patamar que ligam as palavras aos atos. Não cobrimos os erros, somos seduzidos e envenenados (EZ. 13,22). Seduzidos damos créditos à mentira, deleitamo-nos com a injustiça, procuramos satisfazer os próprios desejos e transtornamos, camuflamos e invertemos as verdades em mentiras (MT. 4, 1-11). Mas o texto bíblico só nos dá um caminho: ser luz do mundo e sal da terra (MT. 5, 13-15). Para ser sal e luz é exigido que sejamos capazes de, pelo Espírito, temperar os relacionamentos e iluminar todos os envolvidos. O que só será realidade se inicialmente confessarmos os próprios pecados.

Sem a confissão não teremos os próximos passos, os quais são: o arrependimento, o testemunho fiel, o serviço obediente e a prática do conhecimento que fortalece a vida espiritual, cultiva a cultura da comunhão e cumpre a vontade de Deus para transformar vidas.

Enfim, e portanto, a disciplina da confissão encerra com os obstáculos do orgulho, da consciência endurecida, da repetição do pecado, da interrupção da alegria, do desagradável senso de culpa, da sujidade espiritual, do pesar da mão de Deus (SL. 32, 1-5). Em outra palavra, a confissão põe termo ao fingimento. Mas também é fazer uma declaração, revelar um medo, manifestar as intenções, comungar a verdade. Confessar é parte da honestidade para com o Divino.

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A controvérsia da cura gay

A ideia inicial que deve ser dita, é que “as relações se dão a partir da maneira pela qual os indivíduos se veem e se enxergam”. Não há uma regra universal. Assim, se uma pessoa não gosta de algo, tem nojo ou é contrária a uma marca ou distinção em alguém, pode (embora nem sempre deva) lhe oferecer oposição.

Talvez seja um preconceito. Pois, preconceito (termo originado na forma religiosa de cultuar) é a reação frente ao estranho, segundo Crochik. O preconceito é desenvolvido individual ou socialmente para poder se defender das ameaças imaginárias. Logo, é um falseamento da realidade, a qual o indivíduo foi impedido de enxergar. Por ser imaginário o preconceito cria um universo particular. Deixamos de crer nos que os outros creem e passamos a ser irracionais (atitude da conduta em que se escapa, total ou parcialmente, à razão), dependentes (subordinados à ideia fixa), insuficientes (incapazes e incompetentes para alterar a ideia pré-formada) e impossibilitados (refutados) de controle.

O preconceito é um raciocínio sem argumento que o sustente. É uma conclusão sem premissas. É um dos maiores fatores de deformação da identidade. Por isso, as relações continuamente mudam completamente de imagem. A sociedade não tem mais uma só forma de pensar. Tudo é relativizado. Quase todos os caminhos para a formação humana deixam de seguir o absoluto, o fundamento. Decorrentemente, a humanidade pulveriza a identidade e, por isso, há uma constante insatisfação. Somos fragmentados e nos perdemos. Daí a extrema necessidade urgente de critérios.

Critério pode ser uma norma de confronto, avaliação e escolha ou a capacidade de discernir e identificar a verdade. Mas também pode ser a ideia de reputação que nasce de uma ordem social legitimada pelos valores ou ideologias que “justificam” a organização da sociedade e das relações entre as pessoas. A normalidade – a qualidade do que é normal ou padrão – é o critério, princípio, regra ou preceito a que todo julgamento se refere enquanto modelo. É o conjunto de exemplos (e não apenas de condutas) impostos a um grupo social.

Devido aos critérios, sempre haverá confrontos e exclusões. Pois, excluir é privar alguém de algum lugar; é abolir ou proibir a convivência, a hospitalidade; é suprimir o acesso, banir. Exclusão, como argumenta a antropologia, é o conjunto das dificuldades, dos modos e dos problemas do sujeito que dista dos traços constitutivos essenciais chamados de “normais”. Neste sentido, as situações de exclusão não se encontram nas situações em si mesmas.

As causas das exclusões podem vir das emoções. Como argumenta Martha Nussbaum, filósofa estadudinense, as emoções são processos mentais que podem conflitar com os mais variados julgamentos. Sendo que, neste sentido, ao eliminar a emoção de uma crença, fica impedida a condição necessária do desenvolvimento da própria identidade.

Deste modo, o sistema iniciado por Caim, no Livro do Gênesis, é perenizado na humanidade. Há a negação do divino, o embasamento conduzido pelas diretrizes da história, a crescente relativização, a glorificação do existencialismo, as revoluções sociais, o apego à ciência, os métodos de neo-ortodoxia, as obscuras fundamentações, a estruturação dos poderes e a banalização da fé.

As exclusões se ampliam em suas três formas básicas: a supressão completa dos condenados, a construção de espaços fechados e isolados para seu isolamento e a privação de direitos ou participações em atividades sociais. Nesta ótica, a exclusão não é arbitrária, acidental, fruto de descaso ou acaso ou sorte. Antes, é um processo complexo, configurado nas confluências entre o pensar, o sentir e o agir. E, desta forma, não é um estado que se adquire ou do qual se livra em bloco, de forma homogênea.

Todos estamos inseridos nesta condição de exclusão. Os praticantes de alguma fé, os participantes ou coligados aos LGBT, os que se silenciam, os que conversam na surdina, etc. Isto porque a exclusão não se resolve pela simples “inclusão” do sujeito discriminado em determinado espaço social ou em determinado direito.

Assim, as ilusões da identidade, a multiplicidade das razões subjetivas, as indiferenças materialistas, os ódios rígidos advindos pela imediatividade irracional e os desprezos por comportamentos discrepantes, precisam ser discernidos para encerrar com as hipocrisias e falsidades. E, porque não, encerrar também com as fragmentações, os ódios e os achismos sociais.

Isto vale para a discussão da decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, no julgamento da Ação Popular 1011189-79.2017.0.01.34000, de autoria da psicóloga Rozangela Alves Justino e mais 27 outros psicólogos, contra o Conselho Federal de Psicologia. A decisão judicial favoreceu a liberdade para a possível, embora nem sempre provável, reorientação sexual.

A controvérsia iniciada por esta sentença judicial deveria nos recordar que as divisões do desenvolvimento do pensamento social não se reduzem ou solucionam por boa vontade. Boa vontade, segundo Theodor Adorno, filósofo alemão, “é uma miragem, sedimento histórico do poder, ao qual a vontade teria de resistir”. Se a boa vontade for um braço do “fariseísmo, o momento irracional da vontade”, será apenas uma armadilha que desobriga (sem o pensamento crítico) o desenvolvimento de relacionamentos seguros. Falta a ética. “Quanto mais impiedosamente a sociedade se traveste de forma objetiva e antagonística […] tanto menos se pode garantir qualquer decisão moral individual como uma decisão correta”.

O mal, o abismo da liberdade, a inclinação para a máxima perversa da liberdade, segundo Kant, é a tendência do arbítrio para adotar decisões além da moral. Todos nos tornamos cúmplices, “prisioneiros da ordem”, quando alguns pedem transformação. A felicidade, em decorrência, é “minada subjetivamente, mesmo onde ainda se faz sentir” (Adorno).

Esta condicionante faz com que os particulares desejos tornem o desejante um fugitivo apaixonado pela negação permanente, pela causa falsa, pelo amor pelas trevas, pelo encanto do inexistente, pela fascinante sedução da morte, pela extinção da vida. São estes fatos que alteram os comportamentos. Não a libido.

A aceitação do desejo faz o desejante ser excluído da norma. Há, portanto, um desencantamento da lei. Vale somente o lugar da fantasia. Freud, neste sentido, em 1935, argumentava que “a homossexualidade não é evidentemente uma vantagem, mas nada existe nela de que se deva ter vergonha, não é nem um vício nem um aviltamento, e seríamos incapazes de qualificá-la como doença; […] é uma variação da função sexual provocada por uma interrupção do desenvolvimento sexual”. Homossexualidade é um componente multiforme da sexualidade humana. Embora, associações psiquiátricas em diversos países a vejam como uma doença mental.

Por tudo isto, vale a pergunta: a fé bíblica tem como ajudar para o esclarecimento da questão? Sim. A análise do discurso bíblico encaminha para o entendimento cultural da palavra contaminação. Contaminação, do latim contaminatio, contaminationis, é a corrupção através de contato. Sendo uma sujeira, poluição, infecção ou alteração da pureza, causa modificação nas condições normais devido ao contato que torna inferior, indesejável ou impuro o objeto ou pessoa tocada. O processo tem rápida propagação.

A história da humanidade registra diversos acontecimentos nos quais os juízos foram deturpados ou contaminados por causa da hipertrofia da subjetividade, da alteração dos valores para satisfação individual, da comparação excludente que sequestra a consciência aceita pelo significado social da história da humanidade. As concepções pré-científicas, o modelo médico, o modelo mainstreaming, o modelo social atual, das pesquisas filosófica, antropológica e psicológica não diminuíram os conceitos idealistas dos grupos opostos.

A verdade tem dificuldade de se fixar na objetividade da realidade e se torna dependente das relações subjetivas. Por isso, as disputas parecem um contínuo volver-se do que cada um considera como direito.

O cristianismo é idealista. Busca a ausência de contradições. E nisto, age para que a identidade não se baseie numa experiência particular e única; em um nexo causal. Deste modo, sugere que toda pessoa decida pela integralidade responsável do ser humano. O que só será uma verdade se o interesse individual conduzir o responsável movimento para o outro. Sob esta ideia, a fé bíblica indica que as pessoas levadas pela experiência individualista ou egoísta, em algum momento, devido ao amor concupiscente, seja vítima do abandono, do desamparo e da mortalidade social.

Enfim, cabe a sociedade, laica ou com alguma fé, o exame objetivo para um fim concreto do que seja invenções da inverdade, criatividades imaginativas, fantasias e a realidade destes dias. Pois, assim, poderemos interrogar o outro, o interessado numa reorientação, com liberdade, razão e dignidade. Sem hipocrisia e mentiras; sem vê-lo como os mais fraco ou um ser de desejos perturbados ou insatisfeitos.

Deus nos ajude.

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A armadura da fidelidade

Sobre a armadura da fidelidade – a armadura de Deus – descrita em Efésios 6.10-18, é necessário considerar que o apóstolo Paulo, inicia seu pensamento sobre esta imaginologia diagnosticando as causas e razões que nos conduzem a nos revestir de toda armadura. Assim, em EF. 4.25-6.9, argumenta-se que o encorajamento à santidade perpassa pela capacidade ética de cada um. Ética é o exercício sociopolítico e espiritual-comunitário que faz com que cada um acesse à verdade, após a prova (εξήγηση) da alma no cotidiano confronto da vida.

Por isso, a verdadeira vida cristã não permite nenhuma sombra, não carece de nenhum suplemento, não admite nenhuma mistura. É uma dedicação prática de ânimo que transforma tudo o que toca pela palavra e pelo testemunho. Por isso, o autor descreve as ações humanas em três parênteses:

(1) O caminho do justo e sábio diálogo (4.25-5.2);

(2) A diferença entre seu passado (de trevas) e seu presente (de luz) (5.3-21) e;

(3) O modelo de amor no seu lar (5.22-6-9).

Só depois de exercitar estas qualidades pessoais é que podemos nos revestir da armadura. Pois toda ela foi originalmente usada pelo Senhor dos Exércitos (IS. 11,4-5; 59.16-18; SB. 5.17-23). Assim, só os intrépidos e honrados – ou seja, só os valentes obedientes que pelejam por Deus – tem a guarda das armas da luz (RM. 13.12) e da justiça (2CO. 6.7) para usá-las ofensiva ou defensivamente, quando priorizarem os valores internos de sua individualidade (sobre os detalhes externos das circunstâncias).

A armadura da fidelidade é oferecida àqueles que são fiéis, verdadeiros, autênticos e dignos de confiança (RM. 13.12). Afinal, apenas os filhos da Luz são sempre prontos, prudentes, inteligentes e determinados para administrar os bens que o Senhor lhe concede (LC. 16.8). Logo, é preciso ter como certo que a armadura é dada como arma para a batalha, para insistir no paradoxo da vida apostólica (2CO. 6. 1, 3-10) nos dias maus (EF. 6. 13).

Assim, o capacete da esperança da salvação (1TS. 5.8) é ligado a mente, em contínua vigília, para firmemente estar sempre livre com disposição imediata e rápida à ativamente viver a união espiritual. A couraça da justiça (SB. 5.18; IS. 59,17) é a defesa contra todo o julgamento insubornável, ou seja, é a proteção invencível da santidade que reduz o poder inimigo. É a característica da autoridade suprema.

O cinto da verdade e da lealdade (IS. 11.5) expressa a piedade e o temor do Senhor, além de declarar a bravura ou coragem que vem do Espírito. É concedido aos que não tem vergonha de nada. O calçado do evangelho da prontidão (IS. 40. 3, 9; 59, 7) apoia os passos no caminho processional e triunfal que a proteção divina dá como penhor. Não há deserto que o resista. O escudo da fé (2SM. 22,36; SL. 7.10; 18,30; 47,9; PV. 2,7; JR. 46,3) é a arma defensiva que amortece as setas incendiadas dos inimigos. É a resposta favorável de Deus, seu acudir, para que os joelhos não vacilam, e se alarguem os passos. É oferecido aos defensores do Reino, os representantes de Deus.

A espada do Espírito da Palavra (IS. 11,4; 49,2; 51,16; OS. 6,5; HB. 4, 12-13; AP. 1,16; 19,15) é uma arma de guerra para aqueles que tem a prática do conhecimento diante do caos do mundo. É a arma doutrinária da sabedoria contra os ímpios. É o instrumento que nos leva a cantar quando estamos em missão, como servos da grande congregação do Espírito do Senhor. É uma extensão da ligação que temos com Deus, sobretudo nos movimento e intenções secretos do coração. E o manto da prece perseverante, da oração santificada e do zelo (EX. 28,31; AP. 19,16) é um título senhorial para que não sucedam superficialidades, sonolências, esterilidades, ódios e tolices.

Para concluir, vale dizer que a verdadeira guerra santa usa sabedoria, coragem e fé (JO. 18.10). Pois, o Espírito usa, com mais frequência, o consolo, o desafio, o encorajamento e a ajuda como instrumento para a construção da comunidade dos santos (AT. 1, 13-14). Logo, são atitudes contrárias ao desenvolvimento da fé: a discórdia, a presunção, a avareza, o orgulho, a impaciência e os projetos humanos sem a presença do divino (TG. 4.1-5,1-16). Busquemos toda a armadura do Senhor no dia a dia. Deus nos abençoe.

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SER SANTO É SER ETERNAMENTE VIGILANTE

Ser santo é ter a capacidade de decidir pela fé. É depender dEle no “futuro imediato” (Fohrer, p. 384). É exercitar a fé autêntica que impulsiona a disposição de agir na Palavra de Deus. É deixar a acomodação, ainda que passemos pela morte sofrida de Isaías – serrado em dois durante o reinado de Manassés, segundo a tradição rabínica (HB. 11.37).

Ser santo, segundo IS. 33.15, demonstra que aqueles que recusam ao Senhor só tem o desespero, por um só motivo: não enxergam o vislumbre da Sua presença. Afinal, Deus sempre está ao seu lado para nos livrar da rejeição. Com Ele não há perversão, engano ou tortuosidade que impeçam Sua presença. Isto porque Deus é transparente e nos pede transparência. Somos transparentes quando nossos corações não se anseiam ou agitam. Quando não deixamos os valores da Sua Santa Palavra. Ser transparente é confirmar a epifania de Cristo em nós através da incandescente paz, na inominável alegria, na ousada coragem e no amor excessivo.

Ser santo é não ficar parado no caminho do Evangelho. Segundo Thomas Merton, é não sonegar o amor,

uma dimensão dessa conveniente espiritualidade é nossa total insistência em ideais e intenções, em completo divórcio com a realidade, com as ações e o compromisso social. Tudo o que interiormente desejamos, tudo com o que sonhamos, tudo o que imaginamos: isso é o belo, o divino e o verdadeiro. Pensamentos bonitos são suficientes. Eles substituem tudo o mais, incluindo a caridade, até mesmo a vida em si (apud Manning, p. 50).

Ser santo nos faz seguir com firmeza o evangelho. Vale recordar aqui que o Evangelho nos pede (exige mesmo) a honestidade dolorosa – a sinceridade. Manda que tenhamos coragem e esforço para aceitar a verdade amarga que nos é revelada. Santo Agostinho nos acusa: “muitos que chegam perto do caminho da fé afastam-se amedrontados pela vida perversa dos maus e falsos cristãos”. Para ele não há possibilidade de evitar o choque, o transtorno e a confusão senão pelo contínuo exemplo de vida moldada pelo Espírito em Cristo. Seremos vencidos se ignorarmos, desvalorizarmos ou formos desatentos a Palavra.

Ser santo não é só lutar pelos direitos humanos, causas ambientais ou programas de paz. Ser santo é andar em santidade, buscar a plenitude da vida no Espírito. É servir a Deus. É ter a certeza de que independente dos custos e cálculos da administração eclesiástica podemos fazer o mundo tremer. Ser santo é não ter medo do fracasso, porque Deus dá paz e segurança. “O medo do fracasso evita qualquer surpresa do Espírito”. Medo só impede o crescimento.

A igreja, o espaço de encontro dos santos, é um lugar de promessa e possibilidade, de descoberta, de espontaneidade, de relações interpessoais saudáveis, de renovação da comunidade ao redor. Sendo um encontro dos santos, a igreja deve conceder aqueles que entram pela primeira vez a certeza do perdão, a aceitação em amor de todos os seus membros e a benção da alegria pura. A igreja encoraja a prática da pausa e do descanso em Cristo. É o fim dos padrões viciosos – o fim do “eu”. Nisto Ralph Martin acrescenta

Prontamente, para uma sincera vida de fé, devemos renunciar à escravidão às trevas; nos libertar da ligação com as coisas que nos afastam de uma pura rendição à ação de Deus em nós. Precisamos eliminar totalmente aquilo a que renunciamos ao fazer nosso batismo e que ratificamos a cada Páscoa. E é aqui que encontramos grande dificuldade e nos deparamos com os obstáculos do egoísmo, da sensualidade, da ambição, do ressentimento, do orgulho, do medo, etc (Brennan Manning).

Para vivermos em santidade é essencial um intenso compromisso interior. Pois do contrário seremos apenas pouco mais do que diletantes praticando jogos espirituais. Identicamente, da mesma forma, a igreja que só pensa em sobreviver as alterações de seu tempo mostra Cristo apenas como uma tentativa, não como um senhorio. Sem santidade inexiste relacionamentos horizontais de amor entre todos os discípulos e relacionamento vertical do amor a Deus.

A igreja, a feitoria da santidade do Senhor, deve voltar a ser o povo do caminho (AT. 9.2; 19.9, 23; 22.4; 24.14,22). O norte para os convertidos que querem ter a paixão ardente pelo reino de Deus. Aqui vale salientar que o cristianismo não pode ser inofensivo. Não podemos ser inertes. Temos de exercer o compromisso para o qual fomos chamados: o serviço cristão (a parcela da santidade). É preciso frisar que não serve direito quem não ama, e não serve e não ama direito quem não é capacitado pelo Espírito Santo para fazê-lo” (André). Precisamos aprender que a fé não produz diretamente estratégias de análise e ação social imediata, mas, sim, motivos, valores e critérios para a ação mediadas pelo Espírito Santo.

Em decorrência, a teologia, a análise do discurso divino, fornece critérios para perceber onde a vontade de Deus está sendo feita e onde ela está sendo negada. Os critérios são a justiça, a solidariedade e a paz do Reino (IS. 53). Também quando o Cristo é confessado e glorificado. E quando o amor fraterno originado pela graça de Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo (2CO. 13.13) elimina preconceitos, sofrimentos, marginalização e empobrecimentos.

A santidade possibilita refinar, compreender, reconhecer, comparar, distinguir, esclarecer, decodificar e examinar os atos e fatos da realidade íntima e social. Na prática, orienta resistir e repudiar a ilusão (Kant), a enganação (Monstesquieu), a superstição (Nietzsche) e a crueldade (Clément Rosset) de nós mesmos, da sociedade e das circunstâncias cotidianas.

O profeta Isaías chama os santificados de Renovo do Senhor, tendo em vista seu entendimento de que nossa salvação tem origem divina (IS. 61.11). Aqui se vê que a santificação no Messias é um ensino claro (IS. 61.3-4), pois seus nomes estão escritos no Livro da Vida (EX. 33.32-33; SL. 69.28; DN. 12.1; ML. 3.16; AP. 20.12). Para o profeta a santidade é a afirmação de que Deus é separado do mundo pecaminoso. Isto se torna claro com o fato de que Isaías contempla a Santidade do Senhor, quando toma consciência do seu próprio pecado1 (6.5). Da mesma forma, a santidade é revelada no julgamento que impõe-se aos ímpios (5.16). Mas a ideia central de santidade em Isaías é a redenção do Senhor (1.4; 5.9-13), pois ela purifica a tudo que toca e expressa a promessa da salvação. Só aqueles que suspendem – que param – o caminho da santidade é que se tornam cegos (IS. 29. 9-13) – perdem o caminho e o futuro melhor.

Os desviados ou mesmo os opostos ao progresso da santidade rompem os atos sacrificiais, religiosos ou comuns a fé através da banalização, superficialidade ou atos impensados diante do próprio Deus. Os cultos que não elevam o nome do Senhor nem a comunhão dos santos são artificiais e impuros na presença do Deus Todo-Poderoso. Uma vez que a imoderação nos faz indiscretos, complexos e excessivos na religião – farisaicos. Os escritos do profeta Isaías nos indica imitar o comportamento divino (IS. 51.1-23). O que exige de nós sobriedade, que é mais do que moderação – a ausência de artificialidade ou complicação –, antes é o nível de pureza exigido pelo Lei do Senhor; tão cara ao profeta.

A Lei da Santidade em nós faz ter melhora na promoção da saúde, limitar a violência humana contra a natureza – exemplo de reverência pela vida, proteger contra as forças opostas do mal e firmar a unidade e inteireza sociais. Aqui é visto que o objetivo de Deus é opor-se contra a dissolução pessoal e o pecado. Daí a necessidade de propiciação (LV. 16) e a recusa da religiosidade supervalorizada ou egoísmo – expressões de uma fé exterior e formal.

O desejo de Isaías ao entoar o cântico do Servo do Senhor (IS. 42. 1-9; 49. 1-6; 50.4-9; 52.13-15) é trazer a memória o Código da Santidade (LV. 17.1-26.46).

A santidade à qual somos chamados não é uma simples questão de piedade pessoal, nem mesmo uma mera participação na adoração pública, mas todo um estilo de vida, envolvendo cada aspecto de compromisso pessoal, familiar e social. A santidade divina impõe um padrão complexo de comportamento moral e social sobre quem ele escolheu, de maneira que essa santidade faz com que a santidade responsiva deles seja uma exigência da qual não se pode fugir (Leviticus, Keil, vol. 1, p. 47 apud House, p. 179-180).

Santidade não é uma qualidade intrinsicamente humana. Deus é o Santo de Israel não porque esteja ligado a Israel, mas porque ligou Israel a si mesmo. Somente na e mediante a revelação divina deste fato é que Israel se torna uma nação santa, um povo santo, uma semente santa, uma congregação santa, um reino santo de sacerdotes (Henry, Carl F. H. apud House, p. 182).

As escolhas determinadas por tal Código nos ensinam a ser realmente um povo santo – aquele que evita e opõe-se a atitudes de outros povos; é deixar de a cosmovisão do Egito e de Canaã2.

Santidade vai além da decisão de amar (LV. 18.13), da orientação divina e da autorrevelação pessoal (LV. 19.2). Ser santo é combater os desafios e também as expectativas sociais que equivalem a uma falsa adoração e ao sincretismo. O silêncio de Deus não enseja o erro. O amor que temos por Ele deve determinar nossos limites e obstaculizar as consequências. Porquanto, Deus é Senhor de todo o tempo e de toda a história pessoal de cada um e de toda a sociedade cristã, bem como de todos os eventos. Ser santo é estar sob as bençãos divinas e Seu julgamento.

Assim, Deus requer fidelidade ao monoteísmo (LV. 26.1), adoração cuidadosa e consciente (LV. 26.2). Será isto que afugentará os problemas (LV. 26.14-17), a exaustão (LV. 26.18-20), as aflições (LV. 26.21-22), as derrotas (LV. 26.23-26) e as expulsões da terra prometida (LV. 26.27-35). Tudo porque Deus cumpre seus votos.

Pela santidade da cruz de Cristo somos marcados pela graça divina, por toda a alegria, pela perspectiva de alargamento da comunicação e presença do e com o próprio Deus. Assim, o cristão, em santidade, é encorajado a robustecer e derrotar os pecados que estão em seu derredor3. Estes são esterilizados e afugentados – segregados de fato e de verdade. A Cruz ao estender nossa alegria e força dá a vontade de solidariedade – por causa da salvação em Cristo. Portanto, o cristianismo não cava diante do homem um abismo, dá-lhe um terreno sólido (von Balthasar, p. 53). Uma vez que na cruz temos uma fé viva e operante: um caminho que avança diante dos problemas contínuos e paradoxos que impedem a vitória da esperança cristã.

A santidade, por meio da Cruz, exige de cada um de nós o “combate aos heréticos que conturbam a igreja local, impor ordem no culto, escolher e ordenar os anciãos da Igreja, regularizar a assistência e o ministério às viúvas; e comandar e ensinar a fé apostólica, junto as obrigações morais dela decorrentes” (Stott, 1983, p. 7). Resumidamente, o cristão tem a rigorosa obrigação da disciplina para obter a eudokia (o grande prazer) da santidade. Temos de ser exemplos (hypotypôsis) em tudo; guardando a Palavra da santidade para que nada se perca ou se danifique (phylasso), a fim de perseverarmos e preservarmos a tradição cristã. Afinal, a Palavra da verdade é um alvo, mas também uma estrada.

Todos os cristãos recebem a ordem de fugir da idolatria, da imoralidade, do espírito materialista e do amor ao dinheiro e, aqui, das paixões da mocidade (1CO. 6.18; 10.14; 1TM. 6.11) […] (bem como) resistir ao demônio a fim de que ele fuja de nós (TG. 4.7) […] não devemos nos demorar na presença dele, como Ló em Sodoma (GN. 19.15-16); ao contrário, devemos nos distanciar dele tanto quanto possível, com a maior rapidez. Assim como José, ao ser tentado pela mulher de Potifar, também nos devemos correr e fugir (GN. 39.12) (Stott, ibidem, p. 67).

A santidade nos faz amáveis, pacientes e mansos com o objetivo de evitar discussões insensatas, especulações, contendas e debates ardorosos sobre nada. Também nos torna responsáveis pelos “tempos ameaçadores pelos quais a igreja deverá passar” (Stott, p. 77) e ainda impede os desafetos (astorgoi: sem afeto natural), as irreverências, os egoísmos, as impaciências; as formas sem poder, as aparências externas sem a realidade interna, a religião sem moral, a fé sem obras. Por esta ótica é possível dizer como Exley que “quando era jovem eu admirava o homem talentoso. Agora que sou velho, admiro o homem bondoso” (Exley, 1995), pois só este segue a santidade.

A santidade determina uma vida perfeita4 no conhecimento5 de Deus. Ela nos faz renovar contínua e progressivamente a nossa decisão por Deus. Nossos desejos e escolhas, assim, são firmados para agradar o Senhor (2CO. 5.9; FP. 4.18; CL. 1.10) e não a nós mesmos (GL. 1.10).

Tais atitudes são vistas na vida do profeta Isaías, em sua vivacidade espiritual e experiência pessoal, mesmo diante dos seus minutos finais de vida (IS. 1.4-8), pois nunca deixou de consolidar e se amparar no Deus de sua fé. Ele libertou-se dos seus sentimentos pessoais, de prazer e desprazer e foi introduzido no “Pathos” de Deus. Em outras palavras, Isaías abandonou-se por inteiro nas mãos de Deus (IS. 6.8). Deixou sua inteligência e capacidade humana para ter apenas diante de si a dimensão de Deus. Logo, se tornou um dos mais intensos apologetas de Deus; pedindo que rasguemos nossos duros corações – e consequentemente nossa paralisia espiritual e religiosa – para sermos obedientes ao Senhor (IS. 1.10-17).

Em conclusão, a santidade não pode ser evocada (chamada), ela é uma ação de movimento segundo um plano de desenvolvimento já há muito desenhado e elaborado. É um vigor que aumenta com a prática. É visível aos olhos dos que nos veem. É o que nos afasta da acomodação da igreja atual e da falta de crescimento (símbolo da morte espiritual).

Santificar-se é progredir na conduta cristã (símbolo da eleição divina). Tendo em vista que “o céu não é um prêmio, mas, sim, uma congruidade” (Green, p. 72). Santificar-se é fazer diariamente o evangelho vivo: o amor, a caridade, a castidade e o cumprimento do conjunto de regras pela Santa Palavra de Deus.

Se a santificação for falha seremos como um servo que desobedece deliberadamente ao seu senhor, sendo, por isso, muito mais culpável do que aquele que desconhece por ignorância. “A rejeição da lei de Deus [da sua entrega a cada instante] é o primeiro passo para a rejeição do próprio Deus, pois Deus é um ser moral; Ele é santo, e santo deve ser o homem que tem comunhão com Ele” (Green, p. 115).

É um dever pastoral lembrar a sua necessidade; da mesma forma que é preciso recordar que “a plenitude da bem-aventurança será possível para alguns, somente quando for possível para todos” (Green, p. 136), porquanto Deus é santo e é amor, aqui neste mundo e no vindouro. Logo, conduzir os outros ao caminho da santidade é nosso dever e benefício a quaisquer uns. Temos que advertir e ensinar as maravilhas do caminho da santidade para que não caiamos na deterioração espiritual. “Sempre que um homem [ou mulher] fica fora de contato com Deus a probabilidade é que ele começará a queixar-se dalguma coisa. Resmungar e lamentar-se é uma das marcas que distinguem o homem [ou mulher] sem Deus” (Green, p. 170).

Ser santo é ser eternamente vigilante, pois só assim é que permaneceremos perto do Senhor. Sabendo que somente Ele pode nos guardar de modo que não tropeçamos. Que assim seja!

1Posso dizer portanto que quem não tem consciência do seu pecado, já o tem calcificado e está distante de Deus.

2Temos como exemplo o sexo que objetiva apenas vantagens para si mesmo ou que expressa abusos em sua satisfação. Sexo, portanto, não pode ser uma arma a ser empregada para obter vantagens na família ou na sociedade. O adultério nos torna impuros e “enfraquece os laços de família, destrói, ou pelo menos, prejudica a confiança do cônjuge e da comunidade e é uma quebra da aliança feita com Yahweh, cuja fidelidade e apego para com Israel jamais se põe em dúvida” (House).

3GN. 4.7b.

4Sem a perfeição da união que temos com Deus, em santidade, só teríamos a vacuidade: a vaidade, o vazio.

5Conhecer no Antigo Testamento é a íntima familiaridade com o caráter, a mentalidade e a alma do outro. É o que firma uma mútua e pessoal relação de íntima comunhão da qual deriva a orientação, a natureza, o conteúdo e a direção da vida.

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A ação ética da responsável da fé

A igreja moderna do século XXI, à luz do conhecimento da história eclesiástica e da ciência bíblica, precisa refletir sobre ética. Uma vez que, historicamente, nos caminhos da humanidade, a igreja fora mais longe quando agiu publicamente nos relacionamentos envoltos pelo Evangelho, bem como semeou uma pastoral da dignidade e adentrou pelo mundo dos carentes para fazer uma cidadania real, prática e transformadora. Desta maneira, os modos de controle social da cidade não podem limitar nossas decisões de sinalizar e intermediar as demandas da sociedade. A ação pastoral e eclesiástica, portanto, nunca pode ser um ato isolado ou individual – comandado por um pastor. Antes deve ser uma ação da comunidade da fé, organizada para ir além da simples institucionalização da igreja. Ou seja, ética é parte integrante da responsabilidade eclesiológica e do serviço cristão local.

A ética é a ciência que trabalha o relacionamento a partir do outro. É elaborada em pautas axiológicas, ou seja, naquilo que o encontro de um grupo tem por valor. É um esforço contra a acomodação. Assim, no cristianismo é ser apto de todo o coração para seguir (akolouthein) os mandamentos solidários do Senhor com todos os participantes da fé comungal.

Ética é um compromisso que exige consistente melhoria, progressão da partilha, renúncia concreta, discernimento das palavras e sapiência nos diálogos. Ora, isto é mais facilmente conquistado quando são proibidas as manipulações psicológicas e os chavões evangélicos. Tendo em vista que estas armadilhas da modernidade provocam o ódio — o princípio da demonização — e obstaculizam a plenitude do discernimento das oportunidades, a abrangência dos direitos humanos, o reconhecimento do acesso ao conjunto básico das condições humanas.

Para encerrar, urge dizer que a igreja precisa incutir e agir no espaço mundano além da engessada responsabilidade subjetiva – aquela que responsabiliza alguém pelo que podia prever ou quis fazer. A ética cristã media a liberdade, realiza o direito, classifica o que é certo e errado, debate socialmente as circunstâncias e, segundo Dietmar Mieth:

1. Liberta das opressões e escravidões impostas pela humanidade;

2. Provoca a ação da justiça nas relações sociais;

3. Desprende-se da cultura do cálculo, do venal;

4. Recusa a “cultura da satisfação”;

5. Reconhece a miserabilidade e a vitimação, a violência, para que haja o exercício da compaixão;

6. Baseia-se na sólida igualdade de valor entre homens e mulheres para encerrar com as exclusões sociais;

7. Muda a sociedade através de atitudes sob a crítica sapiencial;

8. Transcende o etnocentrismo com a ação permanente da hospitalidade;

9. Faz plena de vida todas as formas.

Só assim, seremos uma igreja fiel a Palavra da verdade que anda pelo mundo.

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Janaúba, Rio de Janeiro e a Mostra Cultural

Era uma pequena cidade em Minas Gerais que recebera o nome de uma planta medicinal que produz látex com propriedade cicatrizante, purgativa, analgésica, anti-inflamatória e estimulante do sistema imunológico. Mas o desequilíbrio de um homem, iniciado possivelmente por uma perda familiar, trouxe o abalo, a dor e a morte num país inteiro. (O mal é particular). Já na 35ª Mostra Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, um homem nu se exibe. Há crianças como espectadores. Os adultos ao redor não as impedem. (O Estado não se pronuncia). (O mal é social). E na cidade do Rio de Janeiro, é criada a página “Onde tem tiroteio”. Sua finalidade é proteger aqueles que não querem se tornar uma estatística da violência. (O Estado está perdido). (O mal é contagiante).

Três estados, três loucuras, três atos de uma desumanidade. Nem Noé, nem Daniel, nem Jó (EZ. 14.14) seriam capazes de salvar os envolvidos nos litígios, os oprimidos, os ameaçados pela iniquidade (HC. 1.3). Nossos gritos e súplicas (HC. 1.2) ecoam em nossa imobilidade. Aguardamos que a calamidade passe, que se distancie. Clamamos que Moisés e Samuel intercedam por nós (JR. 15.1), mas o Senhor não se inclina para o nosso bem.

Ninguém se atenta para o Caminho do Alto. Poucos são aqueles que sabem a rota para o Santuário das moradas do Altíssimo (SL. 46.4). O rumo para a cidade celestial, a morada de justiça, o monte da santidade! (JR. 31.23). Os atalhos por Siquém, Siló e Samaria (JR. 41.5) foram esquecidos.

Hoje, entesouramos em nossas casas, frias e sem vida, a violência e a devastação (AM. 3. 10). Efetuamos atos infames, egoístas e repugnantes. Fazemos arrogantes residências em Bete-Áven (OS. 4.15; 5. 8; 10. 5-8) e lá pomos os ídolos invisíveis em nossas “casas de nada”. Temos outra casa em Efraim, onde passamos a primavera, pois lá há liberdade para a fraude (OS. 12.7). O monte do escândalo e a colina da destruição (2RE. 23.13) está em qualquer quintal. Nosso veraneio é em Quibrote-Ataavá (NM. 11. 34), com seus “desejos desordenados”. Nosso outono é nas prisões de Hazor (JR. 49. 29-31). Nosso inverno no vale da desgraça, nas mansões de Acor (JS. 7. 24-26). Nossos sítios dão plantações formosas, mas se identificam com o Jardim de Adonis (IS. 17. 10). A falta de alimento e água é impedida pelo consumo das muitas maldades (EZ. 4. 17). Os mortos-vivos das cidades deste país serão enterrados com suas armas (EZ. 32.27); uma honra vã.

O que fizeram do Tribunal dos 23 (2CR. 19.8)? Onde se esconderam as justas sentenças? Quando admitiram a comida do pecado e o álcool da imperfeição (OS. 4. 8; 9. 10)? Em que ocasião a morte de um filho único se tornou apenas um número (AM. 8. 10)? Qual a época na qual o prazer sexual virou sorte (JL. 3. 3)?

Arregaçemos as mangas, voltemos e encontremos o escudo de Abraão (GN. 15.1), o temor de Isaque (GN. 31. 42) e a rocha de Israel (GN. 49. 24). Apregoemos a guerra santa, suscitemos os fortes em Deus (JL. 3. 9). Silenciemos a boca cheia de maldades e angústias (OB. 12). Proíbamos o ressentimento e seus desdobramentos (JN. 4.4.). Deixemos os subornos, os mesquinhos interesses e o apego ao dinheiro (MQ. 3. 11). Pois o Dia do Senhor castigará toda prostituição (ZC. 5. 3-4), toda brecha de ódio vinda de Esaú (ML. 1. 3-4), toda sedução indecente, todo ganho que nos distancie do Senhor (MT. 10. 39), toda indecisão, falta de fé e pusilanimidade (MT. 14. 31), toda esterilidade nas ações espirituais (MT. 21. 18-20), toda imaturidade, toda prática de forçar a barra por conta própria, toda autossatisfação (MT. 23. 13-36), toda brutalidade (SL. 72. 6-12), toda loucura (IS. 32. 6), toda hipocrisia (MT. 6. 16-17), toda prática sem diálogo (1SM. 25. 3, 5).

Que o Senhor, nosso Deus, nos ouça e guie.

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A competência cristã precisa ser ensinada

Seguindo a nomeclatura bíblica, as igrejas no século I, já tinham apóstolos, profetas, evangelistas, mestres, presbíteros, bispos e diáconos. Por isso, vale recordar que, segundo Gerhard Kittel,

1. Apóstolo é a autoridade que mantém as regras da vida de uma igreja;

2. Profeta é a voz da responsabilidade comunitária e eclesial;

3. Evangelista é o proclamador do Evangelho;

4. Presbítero, segundo Gunter Bornkamm, são os maduros aprendizes no cuidado do rebanho. São os maduros cumpridores da disciplina bíblica. São os “grandes” (os destacados) entre o povo de sua geração; aqueles que tem especial estima como discípulo sábio, inteligente e prudente, no colégio da fé. Recebem o apelido de pastores, os responsáveis pela nutrição dos que receberam o Evangelho;

5. Mestre é o revelador da fé; aquele que faz a vida cristã ser eficiente;

6. Bispo ou epíscopo, segundo Hermann Wolfgang Beyer, é o vigia, defensor, patrono, guarda ou espião que benevolentemente “cuida” dos que estão em suas mãos na “archisynagoga”. O bispo é o “primeiro entre seus pares”. (Será bom pensarmos que somente Deus é o nosso bispo);

7. Diácono, diakoneo, é o prestador, particular e amoroso, do serviço da fé; é o cuidador da subsistência do outro, ato impensado para a pessoa livre na antiguidade. Não é apenas que “serve à mesa”, mas aquele que tem uma atitude de amor, sob o rigor do silêncio (MT. 20.26; 1TM. 6.6). Logo, não é um serviço da palavra, mas do juízo.

Em poucos séculos, algumas nomeclaturas caem. Apóstolos, profetas e evangelistas tornam-se substantivos esquecidos.

Podemos, contudo, verificar através do texto Catechizandis Rudibus (Instrução aos iniciantes) (por volta do ano 405 d.C), de Santo Agostinho, que pelo fim do século IV, o ensino moral e religioso através dos antigos textos, sobretudo por meio da tríplice dimensão do noviciado (Instrução da Fé, Introdução à Oração e Conversão dos Costumes), segundo a experiência judaico-cristã, fora desprezada, omitida e perdida.

Agostinho desejava que os novos na fé fossem novamente conduzidos à iluminação. Seu desejo fora que os rudimentos da fé os fortalecesse na Fonte do Espírito. Pois assim, todos que se aproximassem das luminosas lições seriam suscitados para a competência cristã; desde que manifestassem os desígnios de Deus, por meio de um caráter cosmológico, antropológico, cristológico e teocêntrico.

O entendimento de que o real e verdadeiro ensino cristão é essencial provoca firmeza no diagnóstico do núcleo querigmático. Ou seja, faz com que os estudiosos da Bíblia sejam mais fortes no estudo do que eloquente ou elegante nas pregações, mais prudente do que bom conhecedor dos louvores, etc.

O aprendiz da fé cristã, junto de um cristão maduro, deve conseguir ao final, ser avesso à inveja, à soberba e à miséria. Deve ser capaz, habilidoso e eficiente ao expressar o amor “que não é perturbado pela aridez da necessidade” (capítulo 4, VII). Um amor, enquanto “alvo sempre proposto”, que permite aos envolvidos, “dizer e narrar de tal forma que os que ouvem, creiam, e crendo, esperem, e esperando, amem ainda mais” (capítulo 4, VIII).

O espírito alimentado pelo reto conhecimento tem saúde e paz. Fica longe de discórdias e lutas, dos prazeres insanos, da ostentação de riquezas, do orgulho das honras, da voragem desordenada dos partidos, das excitações da juventude, das consciências vazias e feridas (capítulo 16, XXV)

A proposta de Agostinho é que todos, ao longo do caminho, sem desistir ou se perder, possam chegar a Jerusalém Celestial, a visão da paz. Chegar a idade da graça espiritual, aquela que não se sujeita a prêmios visíveis nem a felicidade da vida presente (capítulo 22, XXXIX). O que é possível se os iniciantes da fé cristã forem bem avaliados na interrogação da “catequese sumária”, as palavras básicas do cristianismo. (O prêmio desta primeira avaliação era um punhado de sal; um rito da consciência da santidade e da relação com o divino). Para depois serem promovidos as palavras rituais do exercício da humildade, misericórdia, verdade, amor a sabedoria e santidade (capítulo 37, LV): verdadeiros dons espirituais.

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